Ex-prefeito de Palmeira dos Índios e secretário do governo Paulo Dantas, Júlio Cézar não gostou do movimento feito pelo deputado estadual José Wanderley Neto. Dia desses, o parlamentar foi a Palmeira na companhia do filho Hugo Wanderley para – sejamos claros – fazer campanha eleitoral disfarçada de uma visita a velhos amigos. Hugo será candidato à Assembleia e, se eleito, herdará a cadeira hoje ocupada pelo pai.

Cézar vai disputar um mandato de deputado federal pelo PSD. Nesse projeto, um de seus aliados é o deputado estadual Silvio Camelo, que tentará a reeleição. Ou seja, Hugo Wanderley, em tese, é concorrente direto do aliado do ex-prefeito de Palmeira. Por isso, sua chateação ao perceber a movimentação ostensiva dos “forasteiros”.

Cezar gravou um vídeo para redes sociais no qual comenta a situação que o incomodou. A informação foi divulgada primeiro pelo jornal Tribuna do Sertão. Ele reclama de “paraquedistas” que aparecem em ano eleitoral, “mas nunca ajudaram o município, nunca trouxeram um alfinete, uma pataca de centavo para a cidade”.

José Wanderley é médico afamado Brasil afora. Ficou conhecido pelo pioneirismo na realização de cirurgias de transplante de coração. Historicamente ligado ao senador Renan Calheiros, foi secretário de Saúde no governo Suruagy nos anos 1990. Ele também foi vice-governador duas vezes – nos governos de Téo Vilela e Paulo Dantas.

A família Wanderley é dona do município de Cacimbinhas desde a pré-história. Avós, pais, filhos e netos se revezam até hoje no comando da prefeitura. O domínio é tamanho que na eleição de 2024 o clã não teve adversário. Literalmente. Vaval Wanderley foi candidato único. A população de pouco mais de 10 mil habitantes não teve alternativa.

Júlio Cezar é de outra origem. De família pobre, a mãe era feirante e o pai trabalhava na roça. O ex-prefeito ralou para estudar e trabalhar ao mesmo tempo, foi policial militar e radialista, até se meter no ramo da política. Eleito e reeleito para comandar Palmeira, até onde sei deixou o cargo com aprovação em alta. Depois, virou secretário estadual.

Ao pesquisar para este texto, achei um tanto exótica – mas nada surpreendente – a ampla reação ao vídeo do secretário sobre os “paraquedistas”. De todos os lados, ele foi alvo de críticas e ironias – algumas em tom beligerante. Wanderley, ao contrário, foi tratado como estadista, vítima de um crime hediondo. Por que esse exagero todo?

É como se os críticos de Júlio Cezar estivessem perguntando quem esse cara pensa que é para “atacar” o Doutor Wanderley? Controvérsia política, tudo bem, é do jogo, e o ex-prefeito certamente pode ser criticado. Mas a coisa passou do ponto. Suspeito que Júlio Cezar desafia um panorama secular ao cavar seu espaço na elite política alagoense.