O deputado federal Arthur Lira foi reverenciado como um salvador da pátria por uma multidão de apoiadores no lançamento de sua pré-candidatura ao Senado. O evento ocorreu nesta sexta-feira num hotel de luxo em Maceió. Havia não sei quantos prefeitos – menos João Henrique Caldas –, deputados, vereadores, secretários, arrivistas e aventureiros em geral. No comício, Lira brilhou no quesito autoelogios.
A imprensa alagoana destaca o fato mais relevante registrado no oba-oba eleitoral: a ausência de JHC, aquele que até ontem tinha uma “parceria de verdade” com o todo-poderoso ex-presidente da Câmara dos Deputados. Segundo leio nas análises de colegas de ofício, está claro que os dois racharam para valer.
Como se sabe, negociações republicanas para uma aliança entre o prefeito e o parlamentar se arrastam há mais de ano. A ligar os dois está a oposição ao grupo do senador Renan Calheiros, que controla o governo estadual, hoje na figura do governador Paulo Dantas. Lira e JHC também combinam no apoio ao ex-presidente Bolsonaro.
Se dependesse da vontade do capitão preso por golpe de Estado, a chapa completa nas eleições alagoanas seria JHC para governador, com Lira e o deputado Alfredo Gaspar para o Senado. Mas, no meio do caminho, pintou aquele acordo entre o prefeito e o presidente Lula, que resultou na nomeação de Marluce Caldas para o STJ.
JHC parece um tanto desnorteado quanto à decisão a tomar para as eleições. Sei que o leitor já deve estar bastante aborrecido dessa ladainha – e com razão. Mas é assim mesmo na política. Apesar do racha de agora, nada impede que amanhã os “parceiros” retornem a parceria. Até o começo de abril, o prefeito terá de decidir seu rumo.
Mas o que me chama atenção mesmo é o reino mágico das palavras. Explico: no comício, Lira afirmou que nossa indefesa Alagoas “precisa de ideias novas”. Pergunto como essas duas dimensões podem se harmonizar – Lira e novas ideias. Assim, de primeira, o paradoxo indevassável desafia a razão, a lógica e o curso natural dos rios.
Para renovar a gestão da coisa pública, o candidato a senador conta com o apoio de lideranças da nova política. Nesse grupo de renovadores estão Fábio Costa, Leonardo Dias e Cabo Bebeto, entre outros gigantes com mandato no Poder Legislativo.
Nenhuma surpresa, mas é sempre bom anotar os momentos nos quais política e realidade tomam caminhos opostos – embora os discursos afirmem o contrário. Ficou claro isso? Ali, no hotel que recebeu a festinha partidária, o veneno do reacionarismo mais tosco enfeitava damas e cavalheiros. Havia de tudo, menos renovação de ideias.
