Vamos tomar as palavras pelo sentido que anunciam com clareza. Em tom inflamado, diz o prefeito João Henrique Caldas: “Aqui não tem etiqueta de vende-se”. A frase faz parte do mesmo minicomício no qual JHC diz não se dobrar a cabresto de qualquer parte. Numa inauguração, ele está cercado por alguns vereadores e cabos eleitorais a serviço de uma causa. A plateia reage com a mesma ênfase do orador indignado. 

O contexto. O recado de JHC acontece horas após ser dispensado do PL. As partes não chegaram a um acordo sobre a chapa majoritária. O PL queria o prefeito como candidato a governador, mas impôs Arthur Lira, do PP, candidato ao Senado. Sem chance, teria sido a reação de JHC. Agora ele está a caminho do valoroso e baqueado PSDB.

A três por quatro, você recebe informações atribuídas “aos bastidores da política”. Todos podemos especular o que se passa nessa dimensão secreta do poder. Há também um lado meio folclórico na crônica do universo político. Longe do grande público, antes de chegar às páginas da imprensa, fatos e decisões podem nascer e morrer.

Na cobertura sobre o vídeo de JHC, toda a nossa imprensa, salvo engano, ressaltou a referência ao uso de cabresto. Com razão. Mas vejam que a frase realmente cabulosa é aquela citada acima e que repito agora: “Aqui não tem etiqueta de vende-se!”. É dos bastidores mais sombrios que JHC parece nos falar com essa afirmação inesperada.

Um dia desses, Flávio Bolsonaro apareceu com umas anotações sobre filiados ao PL que estavam cobrando 15 milhões de reais para não ser candidato. Há um forte mercado de não-candidaturas – um antigo padrão intocável no século 21. Além de fofocas, os bastidores escondem trapaças e até crimes. A fala de JHC insinua algo por aí.

Sendo mais direto: o leitor pode deduzir que o prefeito teria sido alvo de uma proposta indecente. Se não diretamente, ao menos alguma sondagem, algum recado solto no ar. Mas, na essência, isto: quanto quer para não disputar a eleição. Especulo.

Tudo bem, pode ter sido força de expressão, ou um recurso figurado para uma crítica republicana aos adversários sem nome. O tom do prefeito no vídeo é de denúncia, com uma coreografia de revolta. Não há dúvida quanto ao teor das palavras e um eventual destinatário. E afinal, ninguém avisa, assim, do nada, que não está à venda.

Sem a delação de nomes, a insinuação do prefeito fica aí mesmo, no pântano das insinuações que é uma das marcas na guerra político-eleitoral. Se a temperatura seguir nos atuais níveis, a turma pode expor outros lances que se aproximem mais do que realmente ocorre nas reuniões fechadas, nos bastidores. Até alguém gritar um alerta.