O debate sobre turismo no Brasil, por muito tempo, esteve concentrado em volume. Mais visitantes, mais ocupação, mais voos. Esse modelo cumpriu um papel relevante ao posicionar destinos e gerar fluxo, mas mostra limites evidentes quando analisado sob a ótica do desenvolvimento econômico. O próximo salto está em atrair turistas mais qualificados, inclusive estrangeiros, capazes de permanecer mais tempo, gastar mais e induzir investimentos estruturais. É nesse ponto que Alagoas entra em uma nova fase.

O estado reúne atributos naturais comparáveis aos de destinos consolidados do Caribe e do Mediterrâneo. Ainda assim, o valor econômico capturado por turista permanece aquém do potencial. Permanência curta, baixa diversificação de experiências e pouca integração entre litoral, interior e economia criativa reduzem o impacto do turismo, mesmo quando o fluxo é elevado.

Para o turista estrangeiro, sobretudo europeu e norte-americano, sol e praia são apenas o ponto de partida. A decisão envolve experiência integrada, autenticidade cultural, gastronomia, conforto, segurança e previsibilidade logística. Onde esses elementos se combinam, o gasto médio cresce, a permanência se alonga e o investimento privado acompanha.

A experiência internacional mostra que esse caminho é viável. Portugal adotou, ao longo da última década, uma estratégia clara de turismo de valor, combinando rotas integradas, conectividade regional, incentivo à permanência prolongada e forte posicionamento internacional em sustentabilidade. O resultado foi um aumento consistente do gasto médio diário, da permanência e da atratividade para investimentos privados em hotelaria, gastronomia e serviços, sem depender exclusivamente de crescimento de volume. O turismo passou a ser tratado como política econômica e não apenas como promoção de destino.

Alagoas pode seguir trajetória semelhante ao estruturar uma estratégia de stop and go no Nordeste, integrando-se a hubs internacionais já consolidados como Recife e Salvador. O turista que desembarca nesses centros pode incluir o estado em roteiros combinados, desde que haja conectividade aérea e rodoviária eficiente, previsível e confortável. Esse modelo é amplamente utilizado na Europa e no Caribe e amplia o alcance internacional de destinos que, isoladamente, teriam menor massa crítica de voos diretos.

Nesse contexto, os investimentos em mobilidade tornam-se decisivos. A construção do Arco Metropolitano, conduzida pelo Ministério dos Transportes, reorganiza os fluxos logísticos na região de Maceió, reduz gargalos urbanos e melhora a ligação entre aeroporto, capital e litoral norte. Trata-se de infraestrutura que eleva a eficiência econômica do território e melhora a experiência do visitante. A futura Ponte de Penedo, conectando Alagoas e Sergipe sobre o Rio São Francisco, amplia a integração regional, fortalece a rota turística do São Francisco e cria novas possibilidades de permanência prolongada, combinando patrimônio histórico, cultura e natureza.

A decisão do governo estadual de avançar na construção de um novo aeroporto internacional em Maragogi, aliada à ampliação e homologação de aeroportos regionais, reforça essa estratégia de descentralização do acesso aéreo. O efeito econômico é direto: aproxima o turista dos destinos premium, reduz custos logísticos e estimula investimentos privados em hotelaria e serviços de maior valor agregado.

A reforma tributária em curso cria uma janela de oportunidade adicional. O novo ambiente permite desenhar incentivos fiscais mais transparentes e orientados a resultados, voltados a projetos turísticos que elevem padrão, sustentabilidade e integração territorial. O instrumento tributário, quando bem utilizado, funciona como indutor de qualidade e investimento, e não como renúncia genérica.

A agenda de sustentabilidade é outro vetor central para o turismo internacional. Alagoas possui elevada participação de fontes renováveis em sua matriz energética, especialmente hídrica, eólica e solar, atributo cada vez mais valorizado por turistas e investidores. Incorporar essa vantagem comparativa a uma campanha internacional consistente permite posicionar o estado como destino tropical sustentável, alinhado às tendências globais de consumo responsável.

Maceió, por sua vez, pode consolidar-se como hub urbano de serviços, eventos e inovação. A inauguração da unidade da Embrapa cria a oportunidade de integrar turismo, ciência e desenvolvimento. A implantação de um novo centro de convenções multiuso na capital permitiria atrair eventos internacionais ligados a alimentos, sustentabilidade, clima e inovação agroalimentar, combinando turismo de negócios e lazer e ampliando a ocupação ao longo de todo o ano.

O turismo, quando tratado como política econômica estruturada e apoiado por investimentos em mobilidade, conectividade e governança, deixa de ser sazonal e passa a ser estrutural. Ele gera empregos qualificados, amplia a arrecadação sem aumento de carga tributária e cria ambiente favorável ao investimento privado.

Alagoas já venceu a etapa da visibilidade. O desafio agora é capturar valor, reputação e permanência. O futuro do turismo no estado não está em receber mais turistas, mas em receber melhor. É nesse ponto que paisagem, infraestrutura e estratégia econômica convergem para produzir desenvolvimento duradouro.

George Santoro