Janeiro é tradicionalmente o mês dedicado à saúde mental. A campanha Janeiro Branco convida à reflexão sobre emoções, cuidados psicológicos e qualidade de vida. Em meio a esse debate, uma dúvida ainda é comum: tristeza e depressão são a mesma coisa?

Segundo especialistas, há uma linha tênue que separa as duas coisas e o autoconhecimento é fundamental para identificar o que se está sentindo. A diferença de tristeza e sintomas depressivos é que a tristeza é uma reação emocional pontual e passageira, geralmente ligada a situações específicas, enquanto os sintomas depressivos são persistentes, intensos e comprometem o bem-estar da pessoa de forma mais duradoura. A tristeza costuma aliviar com o tempo ou apoio emocional. Já os sintomas da depressão podem continuar mesmo sem motivo aparente e requerem atenção profissional.

Para esclarecer o tema, conversamos com a psicóloga Naiara Francelino, que explica como identificar os limites entre uma emoção natural e um transtorno que exige atenção profissional,

Confira a entrevista

Tristeza e depressão são a mesma coisa? Como podemos diferenciar essas duas experiências no dia a dia?

Não, são coisas diferentes. A tristeza é uma emoção natural que estará presente na vida de todas as pessoas em algum momento. Geralmente é passageira e ligada a um acontecimento específico. Já a depressão é um transtorno mental que envolve alterações persistentes de humor, pensamentos, comportamento e funcionamento nas atividades do dia a dia.

É correto afirmar que toda pessoa deprimida está triste o tempo todo? Ou a depressão pode se manifestar de outras formas?

Não necessariamente. A depressão pode se manifestar de diversas formas, como apatia, irritabilidade, vazio emocional, perda de interesse em atividades, cansaço intenso e dificuldade de sentir prazer, mesmo em situações que antes eram prazerosas. Portanto, não se resume apenas à tristeza constante.

Existe um tempo considerado “normal” para sentir tristeza após perdas ou frustrações? Quando esse sentimento deixa de ser saudável?

Sim, é normal que a tristeza apareça após perdas e frustrações. Ela deixa de ser saudável quando se prolonga excessivamente, se intensifica ou começa a comprometer a rotina, os relacionamentos e o autocuidado. O esperado é que, com o passar dos dias, esse sentimento diminua gradualmente.

Quais são os principais sinais emocionais, físicos e comportamentais que indicam que a tristeza pode ter evoluído para um quadro depressivo?

É importante estar atento à persistência dos sintomas, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono e no apetite, isolamento social, sentimentos excessivos de culpa, desesperança e prejuízo no desempenho das atividades diárias.

Muitas pessoas relatam cansaço extremo, falta de energia ou irritabilidade. Esses sintomas também podem estar ligados à depressão?

Sim. Esses são sintomas comuns em quadros depressivos. A depressão afeta a energia, a motivação e a tolerância emocional, podendo gerar exaustão física e mental.

De que forma o corpo costuma sinalizar que algo não vai bem com a saúde mental?

Cada pessoa pode sentir de forma diferente, mas são comuns sintomas como dores frequentes, tensão muscular, alterações no sono, problemas gastrointestinais, fadiga constante e queda da imunidade, mesmo sem causa médica aparente.

Psicóloga, Naiara Francelino, esclarece diferenças entre tristeza e depressão / Foto: Arquivo Pessoal

 

A tristeza geralmente tem um motivo claro. A depressão sempre surge a partir de uma causa específica?

Nem sempre. A depressão pode surgir a partir da combinação de fatores emocionais, biológicos, cognitivos e ambientais. Em alguns casos, não há um evento único que explique o quadro, o que torna o acompanhamento profissional fundamental.

Fatores como sobrecarga emocional, solidão, pressão no trabalho e rotina acelerada podem contribuir para o desenvolvimento da depressão?

Sim. Estresse crônico, solidão, excesso de cobranças e falta de descanso aumentam a vulnerabilidade emocional e podem contribuir para o desenvolvimento do transtorno, dependendo de como cada pessoa lida com essas demandas.

Existe um perfil mais vulnerável à depressão ou qualquer pessoa pode desenvolver o transtorno?

Existem fatores de risco, como histórico familiar, estresse prolongado e padrões cognitivos rígidos, mas qualquer pessoa pode desenvolver depressão em algum momento da vida.

Ainda é comum ouvir frases como “é falta de força de vontade” ou “isso é frescura”. Por que esse tipo de pensamento é prejudicial?

Porque invalida o sofrimento, aumenta a culpa e dificulta a busca por ajuda. A depressão não é falta de força de vontade, mas um transtorno real que precisa de cuidado e respeito.

Como diferenciar um momento difícil da vida de um quadro que realmente precisa de acompanhamento profissional?

Avaliando a duração, a intensidade dos sintomas e o impacto na vida da pessoa. Quando há prejuízo significativo e persistente no trabalho, nas relações ou na saúde emocional, é um sinal de alerta.

Em que momento é fundamental procurar ajuda profissional? Psicólogo ou psiquiatra: quem procurar primeiro e em quais situações?

Quando o sofrimento persiste por semanas, interfere na rotina e nos relacionamentos ou surgem pensamentos de desesperança, inutilidade ou morte. Buscar ajuda o quanto antes facilita o processo de cuidado. O psicólogo pode ser o primeiro contato para acolhimento e avaliação emocional. O psiquiatra é indicado quando há necessidade de avaliação medicamentosa. Muitas vezes, o tratamento conjunto é o mais eficaz.

O tratamento da depressão envolve apenas medicação ou pode incluir outras abordagens?

A psicoterapia é fundamental e, em muitos casos, suficiente. Ela ajuda a identificar padrões de pensamento, emoções e comportamentos que mantêm o sofrimento, promovendo mudanças duradouras.

Qual é o papel da família e dos amigos no apoio a alguém que enfrenta a depressão? O que ajuda e o que pode atrapalhar?

Ajudar significa ouvir sem julgamento, oferecer apoio e incentivar o tratamento. Atrapalha minimizar a dor, pressionar por melhora rápida ou oferecer conselhos simplistas.

Dentro da proposta do Janeiro Branco, que mensagem você deixaria para quem está se sentindo triste há muito tempo e ainda não buscou ajuda?

Sentir-se triste por muito tempo não é fraqueza. Buscar ajuda é um ato de coragem e autocuidado. Você não precisa enfrentar isso sozinho. Existem caminhos possíveis para aliviar o sofrimento e recuperar a qualidade de vida

Sobre o Janeiro Branco

O Janeiro Branco é um convite para refletir sobre a saúde mental em um momento de recomeços e renovação, quando muitos já começam a traçar metas para o novo ano. A pressão por alcançar objetivos pode sobrecarregar as emoções, tornando fundamental o cuidado com o bem-estar psicológico.

O propósito da campanha é conscientizar as pessoas sobre a importância do cuidado com a saúde mental, buscando abrir espaço para debates sobre temas que, muitas vezes, são negligenciados, como o bem-estar emocional, ansiedade, depressão e autoconhecimento. O simbolismo da cor branca representa uma “folha em branco”, que remete ao ato de recomeçar e redefinir a trajetória.

Falar sobre saúde mental é um ato de cuidado e responsabilidade coletiva. O Janeiro Branco reforça que reconhecer limites emocionais e buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de atenção à própria vida.