Um lugar de acolhimento, que nasceu da dor transformada em amor. Fundado a partir da vivência de luto da família de Thaisa Agostinho, o Centro Guadalupe (ou Associação Bom Pastor) é um projeto social que surgiu após a morte da pequena Maria Guadalupe, filha de Thaisa, que faleceu em 2018, aos quase três anos, em decorrência de uma cardiopatia congênita.

“O Centro Guadalupe nasce da necessidade de acolher, de tornar pessoas importantes e queridas. Ele nasce da dor que se transformou em amor”, resume Thaisa.

A ideia ganhou força a partir do trabalho pastoral do padre Benedict Lenartes — conhecido na comunidade como Padre Bené — que celebrava missas inicialmente nas ruas, depois no quintal de uma casa, até a aquisição de um terreno na comunidade de Folha Miúda, no bairro São Francisco, em Craíbas. Foi ali que a proposta de um projeto social começou a tomar forma.

“Já nas missas a gente sentia que aquele era um lugar onde cabia um projeto social. É uma área muito humilde, de periferia, e havia uma necessidade grande de acompanhamento das famílias”, relembra Thaisa.

Acolhimento em uma área marcada pela vulnerabilidade

Localizado em uma região periférica conhecida como “Morro”, o Centro Guadalupe atende crianças, adolescentes, jovens e até adultos de famílias em situação de vulnerabilidade social, em sua maioria beneficiárias de programas de transferência de renda.

“A principal motivação sempre foi tentar salvar crianças, adolescentes e jovens do caminho das drogas, da prostituição, do vício. Mostrar que eles podem mudar a realidade deles”, explica a fundadora.

Segundo Thaisa, atualmente, mais de 50 crianças são atendidas de forma contínua, com faixa etária a partir dos seis anos, além de jovens e adultos acolhidos em atividades específicas.

O projeto funciona de segunda a sexta-feira, com uma rotina que envolve atividades educativas, culturais, esportivas e pastorais. Entre elas estão aulas de reforço escolar, inglês, capoeira, balé, música, além de encontros para jovens e adultos, catequese e celebrações religiosas.

A equipe é formada por professores, cozinheira e profissionais de serviços gerais. Todo o trabalho é mantido exclusivamente por doações de amigos e apoiadores, sem apoio público ou privado.

“O mantenedor do projeto é o padre Bené. Ele confiou o projeto a mim e ao Rafael (marido de Thaisa) mas tudo funciona com muita luta e com a ajuda de quem acredita”, destaca.

Transformação visível

Thaisa conta que os impactos do projeto são percebidos no comportamento, na aprendizagem e, sobretudo, na autoestima das crianças.

“No começo, eles chegavam com medo, com um olhar arisco, sem querer abraçar. Hoje, eles abraçam, falam da vida, confiam. O aprendizado melhorou muito, a escola sente essa evolução”, conta.

Para a fundadora, mais do que um espaço educativo, o Centro Guadalupe se tornou um lugar de afeto. "Para essas crianças, o Centro é um lugar onde elas descansam, são amadas, tomam banho, comem. É um lugar de amor”, completa.

Ceia de Natal: uma noite esperada o ano inteiro

Todos os anos, o projeto realiza uma ceia natalina especial para as famílias atendidas. Em 2025, o evento reuniu cerca de 70 crianças, além dos familiares, em uma noite marcada por apresentações, mensagens e celebração religiosa.

“Eles esperam o ano todo por essa noite. É o dia em que vestem a melhor roupa, chegam sorrindo, são recebidos com abraço e alegria”, afirma Thaisa.

Cada família recebeu uma refeição especial, além de lembrancinhas simples, como chocolates. Em anos anteriores, o projeto chegou a arrecadar presentes individuais por meio de cartinhas escritas pelas crianças.

Doações são essenciais

De acordo com Thaisa, a maior necessidade do Centro Guadalupe, no momento, é a alimentação e a manutenção das atividades ao longo do ano. O projeto também aceita doações de material didático, itens de higiene, roupas e calçados.

“As doações podem ser feitas o ano todo. Aceitamos toda e qualquer contribuição. Tudo faz diferença”, reforça.

Thaisa diz que o Centro Guadalupe a aproximou do social e mudou completamente sua maneira de enxergar a vida. Ela afirma que o local está aberto a visitação.

“Quando a gente se aproxima do social, entende que o que temos é muito. A gente para de reclamar e aprende a ser mais grato. Fazer essa experiência transforma quem ajuda e quem é ajudado. Estamos abertos e dispostos a receber quem quiser conhecer o Centro Guadalupe. Quando as pessoas veem de perto, sentem vontade de ajudar, de estar presentes na vida dessas crianças. Aqui a gente realmente faz acontecer.", conclui.