Ao meio-dia, o calor já domina a casa. As paredes parecem devolver o ar quente para dentro, e o ventilador apenas espalha o abafamento de um cômodo a outro. Nas periferias de Maceió, o calor não é apenas uma sensação passageira do verão: ele se instala, molda a rotina e escancara desigualdades históricas que atravessam o território urbano.
Na última terça-feira (6), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alerta de baixa umidade para 48 municípios de Alagoas. No Sertão do São Francisco, os termômetros podem chegar a 39 °C; na capital, a máxima prevista é de 34 °C.
Em bairros periféricos, no entanto, a sensação térmica costuma ser ainda maior, impulsionada pela ausência de árvores, ruas asfaltadas que retêm calor e moradias pouco ventiladas.
O cenário local dialoga com um quadro global mais amplo. Projeções divulgadas no fim de dezembro pelo Met Office, serviço meteorológico do Reino Unido, indicam que 2026 deverá figurar entre os anos mais quentes já registrados desde o início das medições modernas.
A estimativa é de que a temperatura média global fique cerca de 1,46 °C acima dos níveis do período pré-industrial (1850–1900), com margem entre 1,34 °C e 1,58 °C. Mesmo abaixo do pico de 2024 — quando o planeta atingiu 1,55 °C acima da média pré-industrial —, o ano de 2026 tende a integrar o grupo dos quatro mais quentes da história.
Para Adam Scaife, chefe da equipe de previsão global do Met Office, a repetição de patamares tão elevados marca uma mudança preocupante. “Nos últimos três anos, provavelmente ultrapassamos a marca de 1,4 °C, e a expectativa é que 2026 seja o quarto ano seguido nesse nível”, afirmou.
Calor para todos, impacto desigual
Nas periferias de Maceió, o efeito do calor extremo é sentido de forma desproporcional. “Todo mundo está exposto ao calor, mas nem todo mundo é vulnerável da mesma forma. É essa diferença que define quem sofre mais”, resume Nathália Nascimento, mestra em Engenharia Ambiental, com especialização em Planejamento Urbano e pós-graduação em Educação Ambiental e Mudanças Climáticas, que atua com riscos e desastres climáticos.
Segundo a especialista, tratar ondas de calor como um fenômeno isolado é um erro. “O calor extremo não acontece sozinho. Ele está conectado a uma série de problemas urbanos e sociais”, afirma. A combinação entre moradias precárias, falta de arborização, pavimentação intensa e acesso limitado a serviços públicos amplia os riscos, sobretudo para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.

Essa realidade se reflete no cotidiano de moradores da parte alta da capital. Estudante e morador do Benedito Bentes, Levy Cordeiro relata episódios recorrentes de mal-estar. “Constantemente sofro com o calor, principalmente em dias mais abafados, quando a temperatura passa dos 33 °C”, conta.
Em 30 de dezembro do ano passado, segundo ele, a sensação térmica chegou a 37 °C perto do meio-dia. “Senti uma tontura quase incontrolável indo para o trabalho. Achei que iria desmaiar.”
O impacto não é apenas físico. “Me deixa desmotivado e mentalmente exausto. Dormir no calor é extremamente difícil. Você acorda com a impressão de que não descansou nada”, diz.
Sombra rara, ventilador indispensável
No Trapiche da Barra, as queixas também são frequentes, sobretudo em áreas com pouca arborização. Alice Maria, moradora do bairro, diz que sair de casa sem guarda-sol se tornou quase inviável.
“Durante os períodos de maior sol, quase não encontro sombra. Chego sempre esbaforida e já tive várias vezes insolação, pressão baixa e desidratação, mesmo sem fazer esforço físico”, relata.
Dentro de casa, o ventilador deixa de ser um item de conforto e passa a ser necessidade básica. “Cada pessoa precisa de um ventilador para conseguir dormir. Trabalhar ou estudar no calor extremo é muito difícil, o foco vai embora”, afirma.
À noite, o alívio não vem. “A temperatura só fica minimamente aceitável quando estamos cercados de ventiladores. Fora isso, o calor é escaldante até de madrugada, piorando com os mosquitos”, diz Levy.
Alice acrescenta que morar próxima a um grande canal aberto agrava a situação. “No fim da tarde preciso fechar todas as janelas por causa dos insetos. A casa fica ainda mais abafada, mas é a única forma de tentar fugir deles.”
Para os moradores, o contraste entre diferentes regiões da cidade é evidente. “A parte baixa da cidade é muito mais agradável, mesmo o calor sendo marcante. Diferente da parte alta, é comum observar várias árvores nos bairros mais favorecidos, o que ajuda bastante a deixar a temperatura mais agradável”, observa Levy.
A desigualdade também aparece no acesso aos serviços de saúde. Alice avalia que bairros como o Trapiche contam com equipamentos importantes, como a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Trapiche e o Hospital Geral do Estado (HGE), enquanto a realidade na parte alta é mais frágil.
Levy confirma a percepção. “Apesar de existir mais de um local para atendimento de saúde, o serviço costuma deixar a desejar, principalmente em situações urgentes, que precisam de resposta rápida”, afirma.
Para eles, as soluções passam por medidas básicas de infraestrutura urbana. “É de conhecimento geral que as árvores ajudam bastante a regular a temperatura ambiente”, diz Levy.
Alice concorda e acrescenta outro problema estrutural: “Além de mais árvores, o tratamento dos esgotos a céu aberto ajudaria a reduzir a quantidade de mosquitos e insetos, que aumentam muito principalmente no calor”.
Racismo ambiental escancarado
Para Nathália Nascimento, as ondas de calor aprofundam um problema estrutural: o racismo ambiental. Populações negras e pobres, historicamente empurradas para áreas sem infraestrutura adequada, acabam mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas.
“Quando você coloca essas pessoas em lugares sem árvores, sem ventilação e sem serviços públicos adequados, elas vão sentir muito mais o calor”, explica.
Ela critica ainda o uso do termo “urbanização desordenada” para descrever esses territórios. “Isso carrega preconceito. Não é desordem, é a lógica da sobrevivência. As pessoas constroem como conseguem, porque precisam morar em algum lugar”, afirma.
Segundo a especialista, mulheres enfrentam uma camada adicional de vulnerabilidade. “São elas que permanecem nos territórios, sustentam as casas e as famílias.”
Planejar a cidade é cuidar da saúde
No curto prazo, a especialista defende ações de saúde pública, como campanhas de hidratação, orientação da atenção básica e adaptação das rotinas de trabalho. “Protetor solar hoje não é estética, é saúde pública”, afirma.
De acordo com Nascimento, para trabalhadores expostos ao sol, o alerta é direto. “Não dá mais para manter a mesma jornada, no mesmo horário, como se nada tivesse mudado”.
A médio e longo prazo, o enfrentamento passa pelo planejamento urbano, com arborização, preservação de árvores nativas, materiais construtivos adequados, ventilação natural e espaços públicos sombreados.
A especialista crítica ainda escolhas arquitetônicas que intensificam ilhas de calor. “Prédios espelhados pioram o problema. A diferença é que, nas periferias, muitas vezes não há escolha nenhuma.”
Ao final, a engenheira ambiental resume o desafio que conecta o fenômeno climático à desigualdade urbana. “O calor não é só desconforto. É um problema urbano, social e de saúde pública — e, se nada mudar, quem sempre sofreu mais continuará pagando o preço mais alto”.
*Estagiária sob supervisão da editoria
Foto de capa: Jonathan Lins










