O início de um novo ano costuma trazer a sensação de recomeço, reflexão e mudança. É nesse contexto que surge o Janeiro Branco, campanha dedicada a estimular o diálogo e o cuidado com a saúde mental, chamando atenção para o sofrimento psíquico.
A forma como o trabalho é conduzido dentro das organizações tem se mostrado decisiva para o bem-estar, ou o adoecimento, de milhares de trabalhadores.
Metas inalcançáveis, cobranças excessivas e ambientes marcados pelo medo e pela insegurança emocional ajudam a explicar o crescimento expressivo dos casos de ansiedade, depressão e burnout no país. No centro desse cenário está a liderança.
Segundo o psicólogo Ricardo Campelo, a postura do líder funciona como um verdadeiro termômetro emocional das equipes. “A postura do líder tem papel central na saúde e no bem-estar das equipes, atuando como um regulador emocional do ambiente de trabalho”, explica.

De acordo com ele, lideranças acessíveis, coerentes e previsíveis reduzem níveis de estresse e ansiedade, enquanto posturas autoritárias ou ambíguas aumentam a insegurança psicológica e comprometem a produtividade.
Essa relação entre gestão e saúde mental já é reconhecida oficialmente. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a incluir os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), admitindo que fatores como estilo de liderança, comunicação e organização do trabalho interferem diretamente na saúde mental dos trabalhadores.
Comportamentos que adoecem
Na prática, alguns modelos de liderança têm contribuído para o agravamento do sofrimento psíquico no ambiente corporativo.
Ricardo destaca que “cobrança excessiva sem critérios claros, metas inalcançáveis, comunicação agressiva ou humilhante, invalidação emocional, ausência de escuta e imprevisibilidade nas decisões” são comportamentos que colocam o trabalhador em estado permanente de alerta.
Esse cenário, segundo o psicólogo, alimenta a cultura da hiperprodutividade, o qual o descanso é visto como fraqueza e o adoecimento, como falta de esforço. “Esses comportamentos elevam significativamente o risco de burnout, ansiedade e depressão, hoje reconhecidos como riscos psicossociais relevantes no contexto da NR-1”, ressalta.
Para reverter esse quadro, Campelo defende um modelo de liderança emocionalmente responsável. “É aquela que busca equilíbrio entre resultados e cuidado”, define. Isso envolve estabelecer expectativas claras, oferecer feedback respeitoso e criar um ambiente psicologicamente seguro, onde os limites humanos sejam reconhecidos.
Segundo ele, liderar de forma saudável não significa abrir mão de metas ou responsabilidades, mas trabalhar com objetivos possíveis e práticas preventivas em saúde mental. Trata-se de compreender que decisões gerenciais têm impacto direto na vida emocional das pessoas.
Janeiro Branco além do discurso
Nesse contexto, o Janeiro Branco surge como uma oportunidade estratégica para provocar mudanças reais nas organizações. Para Campelo, a campanha não deve se limitar a ações pontuais ou simbólicas.
“O Janeiro Branco propõe uma reflexão ampla sobre saúde mental nos âmbitos pessoal, social e profissional. Ele deve ser usado como ponto de partida para a construção de uma cultura contínua de cuidado”, afirma.
Isso inclui a criação de espaços de diálogo, capacitação de lideranças e revisão das práticas de gestão. Quando integrado ao cotidiano das empresas e ao GRO, o cuidado com a saúde mental deixa de ser campanha e passa a ser valor organizacional.
Um dos maiores desafios dentro das empresas ainda é permitir que o trabalhador reconheça seus limites sem receio de punições. Para o psicólogo, esse processo começa pela construção da segurança psicológica. “Falar sobre sobrecarga, limites ou dificuldades não pode ser interpretado como fraqueza”, reforça.
Segundo Campelo, cabe ao líder exercer escuta ativa, acolher, negociar demandas e deixar claro que o cuidado não gera retaliação. A própria NR-1 atribui às organizações a responsabilidade de identificar situações que ultrapassem limites saudáveis e atuar de forma preventiva, protegendo o trabalhador e também a empresa.
Em um cenário de crescimento dos afastamentos por adoecimento mental, a mensagem é clara: ambientes de trabalho saudáveis não são resultado de discursos motivacionais, mas de lideranças conscientes, práticas responsáveis e uma cultura que reconhece que cuidar da saúde mental é parte essencial do trabalho.
Ansiedade constante, irritabilidade, desânimo, perda de interesse pelo trabalho, sensação de fracasso e sintomas físicos, como dores e alterações no sono, são sinais que não devem ser ignorados. O primeiro passo é reconhecer o sofrimento e buscar apoio.
A saúde mental integra o Sistema Único de Saúde (SUS), com atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e em clínicas-escola de universidades. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional 24 horas pelo telefone 188.
*Estagiário sob a supervisão da editoria










