Mulheres relatam assédio dentro dos órgãos da Segurança Pública de AL: “Corpo da mulher é visto como algo público”

Rebecca Moura*|
Assédio foi denunciado por menor de 15 anos
Assédio foi denunciado por menor de 15 anos / Foto: Internet

Centenas de mulheres que trabalham nas Polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros, Perícia Oficial e Polícia Penal em Alagoas são vítimas diariamente de assédio moral e sexual ao desempenhar suas atividades em cada um desses órgãos. Dentro dessas instituições, tais condutas ilícitas são comuns e na maioria dos casos o autor não é punido.

De acordo com os dados do Ministério Público (MP) do estado de Alagoas, no Corpo de Bombeiros Militar (CBM), 46,9% das mulheres afirmaram ter sofrido assédio sexual, tendo 35,7% deles ocorrido dentro do ambiente de trabalho.

Ainda conforme o MP, quase 40% dessas práticas vieram de superiores hierárquicos ou de colegas de mesma patente, o que liga diretamente a hierarquia ao ato. Já com relação ao comportamento sexual inadequado, 69,4% das bombeiras alegaram já ter sido vítimas.

No que diz respeito ao apoio para resolver ou enfrentar a questão, os dados revelam que apenas 19,4% delas informaram ter recebido algum apoio para resolver o problema, percentual que foi considerado baixo pelo MPAL. Isso resultou num outro dado negativo: 54,1% das bombeiras que foram assediadas não oficializaram a denúncia.

Conforme Camila Paiva, tenente do CBM de Alagoas, criadora do movimento “Somos Todas Marias”, de combate ao assédio sexual e violência de gênero contra as mulheres dentro das instituições de Segurança Pública, quando ocorre algum tipo de assédio o procedimento para denúncia é fazer uma comunicação por escrita do fato também pode ser feita uma denúncia pelo “É ouve”, uma ferramenta digital para fazer denúncia, tanto anonimamente quanto se identificando.

Para ela, a principal forma de fazer com que esse tipo de situação diminua é por meio de uma educação com conscientização. “Precisa haver uma desconstrução, uma mudança de cultura, implementação de palestras e matérias obrigatórias nos cursos de formação a respeito de gênero e violência da mulher e políticas efetivas de combate à violência ao assédio por meio de uma legislação rígida”.

“A gente vive numa sociedade machista e patriarcal em que muitas vezes o corpo da mulher é visto como algo público, que as pessoas se sentem no direito de tocar, de opinar. Se na sociedade já é muito forte, imagina numa cooperativa que é composta 90% por homens”, conta.

A tenente relata o caso de um militar que assistia filmes pornográficos durante o serviço e não foi punido pela corporação. “Uma militar que, durante o serviço, o seu superior hierárquico ficava vendo filmes pornograficos do lado dela. Ela trabalhava na Central de Atendimento à População e ele ficava do lado assistindo vídeo pornográfico e ela ficava extremamente constrangida. Ele ficava mandando ela assistir, tocando na perna dela, foi uma situação muito ruim e infelizmente ele não chegou a ser punido”.

Camila disse que é preciso que as pessoas entendam que o “limite é a vontade da pessoa”. “Quando a pessoa diz que não quer ou não mostra reciprocidade. Às vezes a mulher fica tão sem ação que não consegue se manifestar sobre, ela fica em choque e o outro consegue perceber”, explicou.

Já para Stephany Domingos, sargento do CBM, muitas vezes isso acontece de maneira sutil e vai evoluindo gradativamente. Na maioria das vezes a vítima demora um pouco para se sentir constrangida.

“A sociedade machista faz com que as mulheres aceitem determinadas situações, acham que estão vendo coisas onde não existem, mas existem, então quando a gente percebe determinado movimento de assédio, de importunação sexual, a gente se sente constrangida porque realmente aconteceu”, explica a sargento.

la contou algumas situações que sofreu assédio sexual no ambiente de trabalho, onde os autores não foram punidos. “Eu estava com uniforme, que é uma saia, e o militar passou a mão na minha perna e ficou olhando fixamente para minhas coxas”.

“Eu estava em um evento, fardada, trabalhando e um oficial da corporação que eu também faço parte passou por trás de mim de maneira libidinosa e passou a parte intima dele no meu corpo. Já tinha acontecido outras situações envolvendo esse militar, então eu fiquei muito constrangida, muito nervosa, muito indignada e comecei a chorar desesperadamente. Duas militares que estavam comigo viram o movimento, mas não viram o ato, eu quem senti, eu que sei. Abri o procedimento contra ele e foi arquivado, a corporação alegou que as oficiais que estavam comigo no evento repreenderam ele, e como foi repreendido verbalmente não precisaria mais ser punido de outra forma” relata a sargento.

Como denunciar?

Ao CadaMinuto, a assessoria do CBMAL informa que quando há a denúncia, é aberta uma sindicância para ser investigado o caso, e se for culpado, será sim punido”.

No âmbito da Polícia Militar, o estudo mostrou que quase 50% das mulheres confessaram já ter sofrido algum tipo de assédio em razão da sua atividade profissional.

Dentre os dados coletados, 74,1% das PMs disseram que já tiveram seu trabalho desvalorizado ou não considerado pelo fato de serem mulheres. Outras 50% confirmaram ter sofrido bullying pela condição de serem do sexo feminino. Já com relação ao comportamento sexual inadequado, 73,5% delas responderam que já foram vítimas, com 44,4% desses assédios tendo sido praticados por superior hierárquico.

Stephany Domingos relata ainda outra situação que aconteceu na Polícia Militar de Alagoas, em que um militar estava dentro do alojamento feminino e pegou a calcinha da vítima e ejaculou. Quando ela viu a situação fez o procedimento, tentou comprovar que tinha sido ele, mas o militar não foi punido.

A reportagem entrou em contato com os outros órgãos para saber quantos homens foram punidos e quantos casos foram registrados, mas até o fechamento da matéria, eles não responderam.

*Com supervisão da editoria. 

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