Especialistas falam sobre trombose e efeitos colaterais dos imunizantes e alertam: “Tenham medo da Covid-19, não da vacina”

Gabriela Flores |
Vacinação na capital
Vacinação na capital / Foto: Secom Maceió

O medo de trombose ou dos possíveis efeitos colaterais que algumas vacinas contra a Covid-19 podem provocar tem feito com que muitas pessoas “escolham” o imunizante que vão receber ou até que deixem de se vacinar. O CadaMinuto ouviu especialistas que alertaram para os riscos de não se vacinar e pontuaram informações equivocadas sobre a eficácia dos imunizantes. 

A especialista em Alergia e Imunologia pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), Cynthia Mafra, disse que quanto mais a pessoa demora a se vacinar, maior risco corre de pegar a doença e desenvolver a forma grave, por isso recomenda que  o cidadão se vacine com o imunizante que estiver disponível, assim que chegar vez.  

Quanto à eficácia dos imunizantes, a especialista explicou que não existe um estudo único comparando as vacinas disponíveis no Brasil. Cada vacina teve a sua eficácia e segurança comprovada em estudos próprios, com métodos diferentes, populações diferentes e essas porcentagens não são comparáveis.  

“A CoronaVac utilizou uma metodologia que analisava sintomas como se fossem da doença e usou uma população de profissionais da saúde da linha de frente que estavam expostos diariamente ao vírus. Já AstraZeneca usou outra população e outra metodologia de avaliação”, comentou Mafra, reforçando que ambas tiveram a sua eficácia demonstrada nos seus respectivos estudos. “Uma vez que a vacina é aprovada pela agência regulatória, ela já é eficaz, não poderia ser aprovada se não houvesse eficácia”.  

“A gente só vai ter realmente uma segurança e um efeito das vacinas quando atingir um percentual de imunizados que torne possível a diminuição e o controle da circulação do vírus, aí sim as pessoas mais suscetíveis, quer tenham sido vacinadas ou não, não serão mais expostas”, mencionou.  

Efeitos colaterais e trombose 

Não é correto deixar de se vacinar por medo de efeito colateral, disse a médica. Segundo Cynthia, os benefícios são infinitamente superiores e os possíveis efeitos colaterais são mínimos. “Em relação à trombose, o risco é muito inferior ao benefício, é raríssima a trombose relacionada a vacina da AstraZeneca, é na prevalência de 0,0004%”, disse e alertou que o risco de trombose é muito maior quando a pessoa está com a forma grave de Covid-19 do que pela vacina.  

“Quando a pessoa tem algum efeito colateral a uma vacina, significa que o sistema imunológico está reconhecendo aquele estímulo vacinal e montando uma resposta de memória imunológica, ou seja, de defesa”, falou Cynthia Mafra.  

A especialista explicou que as causas para trombose são diversas, geralmente são as chamadas “doenças do sangue”, as trombofilias. Pacientes oncológicos são mais propensos a trombos, assim como aqueles que têm arritmias cardíacas. Mas em relação à vacina da AstraZeneca, não tem nada a ver com esse tipo de trombo.  

“É uma trombose raríssima, que é relacionada a um evento imunológico. É uma reação imune à vacina, onde se formam anticorpos que vão se acumular nos vasos, provocando a formação de trombos. Esse tipo de trombose é raríssimo”, defendeu a especialista. 

A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia Regional Alagoas, em parceria com a Sociedade Alagoana de Infectologia, emitiu uma nota técnica esclarecendo que as pessoas que têm histórico de trombose, trombofilia e arritmia, ou qualquer fator de risco pra trombose comum, não têm contra indicação de tomar a vacina da AstraZeneca e “isso está constatado na literatura internacional a respeito da vacina, principalmente na Inglaterra, que é o país que mais aplicou esse imunizante no mundo”.  

Quem tem contraindicação e não deve tomar a vacina da AstraZeneca é quem apresentou previamente caso de trombose com trombocitopenia, ou seja, trombose com plaqueta baixa, relacionada à vacina. 

Observando que algumas pessoas têm recorrido aos consultórios médicos para pedir medicamentos anticoagulantes por medo de possíveis trombos, a imunologista disse que é mais lamentável ainda o médico prescrever anticoagulante após a vacina, sem nenhuma indicação. “Quando a gente prescreve um medicamento, tem que ter um embasamento científico, já que estamos falando de um mecanismo imunológico. Esse colega, infelizmente, não está atualizado. Quando você prescreve uma medicação sem a menor indicação, como no caso de anticoagulante pode ocasionar uma iatrogenia, quer dizer, uma doença causada por um tratamento”, esclareceu a médica.  

Mais ciência e menos fake news 

“Eu aconselho as pessoas seguirem a ciência, os especialistas e não as dicas da internet”, pontuou Cynhtia. “Às pessoas que estão escolhendo a vacina, o conselho que eu dou é que sigam as recomendações dos especialistas, não atrasem a sua imunização, nem um minuto, para escolher a vacina. A vacina melhor é aquela que está no seu braço, a hora é de se vacinar o mais rapidamente possível, porque só atingindo uma parte grande da população, cerca de 75%, é que a gente vai conseguir diminuir a circulação do vírus e controlar a pandemia”.  

Quanto às pessoas que esperam para escolher o imunizante que vão tomar, a especialista alertou que, quanto mais demora em se vacinar, mais risco você corre de ter Covid-19 e “isso sim deve causar medo, não a vacina”.  

“O brasileiro sempre teve a cultura de aderir à vacinação. Nós somos referência. E esse momento que a gente vive é um momento estranho, onde as pessoas têm medo de vacina e estamos rodeados de muitas fake news a respeito da imunização”, observou a médica.  

“O momento não é de briga política, o momento é de união, a gente precisa de adesão para que as vacinas façam efeito, então é esse o conselho que eu dou, tenham medo da Covid-19, não da vacina”, concluiu. 

Defendendo também que a trombose pode ser causada por vários fatores, como, por exemplo, pessoa em pós-operatório acamada por longo período, em pós-parto, em pessoas com distúrbios de coagulação, Adnize Silva Alves, médica do Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (Crie), reforçou que no caso da trombose pós-vacina os pesquisadores, médicos e autoridades de saúde discutem esse efeito adverso raro (8 para cada milhão de vacinados, diz o hematologista Daniel Dias Ribeiro), supostamente ligado a algumas vacinas, mais especificamente aos imunizantes que adotam os adenovírus na formulação. 

Quanto às pessoas que estão em busca de médicos para se “prevenir” de possíveis efeitos colaterais, Adenize comentou que usar qualquer tipo de medicação sem orientação médica é uma prática totalmente incorreta. “O anticoagulante é usado para evitar que o sangue forme coágulos dentro dos vasos, situação em que são chamados de trombos (como em pessoas com predisposição de formação de trombos). A maior complicação associada aos anticoagulantes é o sangramento consequente à anticoagulação excessiva”. 

A médica aconselha a não perder a oportunidade em se vacinar, pois as complicações e consequências da Covid-19 são bem mais graves (como a trombose que ocorre em 16,5% dos infectados) do que os eventos adversos pós-vacina. “Lembrando também que o uso de anticoncepcional, gravidez e tabagismo apresentam risco bem maior de desenvolver trombose que a vacina”, justificou a médica. 

Cardápio de vacinas 

Apesar de todos os alertas e do crescente número de casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e de óbitos em decorrência da doença, algumas pessoas ainda parecem estar num “self service” de vacinas onde preferem escolher aquela que “acham” ser melhor e mais adequada. 

Uma estudante alagoana, que preferiu não se identificar, foi taxativa ao afirmar que só vai tomar uma determinada vacina porque ela tem “propensão a trombose”. A reportagem perguntou se ela já teve algum problema com trombos e ela afirmou que não, mas na família há casos, então prefere não “arriscar”. 

A jovem ainda disse que, quando chegar a sua vez na fila da vacinação, se a vacina “escolhida” não estiver disponível, ela vai deixar de se imunizar. 

Por outro lado e numa atitude consciente e coletiva, o ator Alexandre Nero foi assunto nas redes sociais ao postar que foi se imunizar e a vacina que tomou foi “Akytinha”.  

Nero brincou ainda quando internautas questionaram sobre os efeitos colaterais da vacina e disse: "Já tive ressacas de cerveja bem piores", defendendo que “a vacina é um pacto coletivo”. 

Projeto Real News 

Para obter mais informações sobre a Covid-19, vacinas e outros tema, acesse o projeto Real News no Instagram, Facebook e YouTube. O projeto é um trabalho voluntário, organizado pela Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia, em parceria com a Sociedade Alagoana de Infectologia e três ligas de medicina do estado de Alagoas.  

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