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Oxigênio, vacina, impeachment

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Depois de promover críticas e elevar dúvidas na população sobre a eficácia das vacinas, Bolsonaro só se convenceu de que deveria promover a vacinação após perceber o quanto o Governador de São Paulo, João Dória, foi fortalecido pelo feito do Instituto Butantan e se capitalizou politicamente, ao iniciar a vacinação no Brasil na capital paulista, por mérito do Governo do Estado. O que fez Bolsonaro tentar correr atrás do prejuízo, para não ter que engolir o orgulho e implorar para China, optou por se ajoelhar diante da Índia para comprar 2 milhões de doses - após ter recusado, em 2020, diversas tentativas da farmacêutica Pfizer de vender 70 milhões de doses ao Governo Federal, sob a justificativa de que a quantidade não seria suficiente. Parlamentares de oposição classificaram a recusa como uma tentativa do Presidente de sabotar a vacinação no Brasil, quando vários países da Europa começaram a assinar contratos para aquisição da vacina ainda em agosto do ano passado, antes mesmo delas estarem produzidas e aprovadas. 

A falta de oxigênio medicinal em Manaus é outro episódio lamentável, mesmo tendo tomado conhecimento com antecedência e tendo enviado representantes do Ministério da Saúde para verificar a situação, que atestaram o perigo iminente do colapso do sistema de saúde, e alerta da empresa responsável pelo fornecimento, o Governo Federal não tomou as providências necessárias. Apenas após uma mobilização social para doar cilindros de oxigênio aos hospitais e solidariedade de Governadores que disponibilizaram leitos para tratar de amazonenses infectados, que o Governo Bolsonaro passou a tomar medidas efetivas. Para preservar os dedos, o anel da vez é o ministro da saúde, Eduardo Pazuello, que passou a ser investigado pelo STF à pedido da Procuradoria-Geral da República. 

Essa sucessão de fatos fragilizou ainda mais o Governo Bolsonaro, insatisfação demonstrada inicialmente com panelaços, seguidos de carreatas realizadas durante o final de semana, em todas as regiões do país pedindo seu impeachment e realçadas com a divulgação de duas pesquisas neste domingo: 1) Datafolha afirma que 48% reprova a atuação de Bolsonaro durante a pandemia e 42% defendem o impeachment; 2) Atlas Político mostra que 53% da população é favorável ao impeachment. O jornal Valor Econômico, porta voz da elite econômica, vem trazendo matérias sobre a insatisfação dos banqueiros e empresários com Bolsonaro, setor importante para a sustentação de Bolsonaro até então e que foi determinante para a queda da ex-presidente Dilma. 

Embora não aparente estar prestes a ser deflagrado, Bolsonaro nunca teve tão próximo de ser alvo do próximo impeachment presidencial, o presidente é beneficiado pela falta de união dos diversos grupos que fazem oposição ao Governo. Setores da esquerda não aceitam dialogar e atuar na mesma trincheira que grupos da direita, grupos da direita não aceitam convergir com a esquerda, o centro... continua como sempre esteve, propenso a qualquer um dos lados, aberto ao diálogo e às propostas. A eleição do novo presidente da Câmara Federal, marcada para o próximo dia 01/02, poderá ser o capítulo decisivo, visto que sem o apoio deste, um processo de impeachment não prospera. O candidato Baleia Rossi fala que analisará os pedidos de impeachment, o outro candidato, o alagoano Arthur Lira, sinaliza que engavetará os pedidos.

Pilares importantes de um governo: o apoio popular, começou a cair após o fim do auxílio emergencial; o apoio parlamentar, torna-se cada vez mais difícil de justificar mediante uma sucessão de erros; o apoio dos setores econômicos, retrocede após o Governo não conseguir executar sua agenda econômica. Resta saber se os insatisfeitos apenas querem demonstrar essa insatisfação ou querem de fato derrubar Bolsonaro, isolados apenas farão Bolsonaro se desgastar ainda mais para chegar enfraquecido na sua tentativa de reeleição; juntos poderão escrever mais um momento histórico. Com um terceiro presidente alvo de impeachment, o Brasil se igualaria ao Equador, nenhum outro grande país, com influência e peso na conjuntura internacional teve tantos episódios de instabilidade política que chegassem à essas “vias de fato”. 

Tudo isso e ainda estamos no primeiro mês de 2021…

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