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Fazer artístico e a riqueza da produção cultural feminina é apresentado por Kelcy Ferreira em webinário

Texto: Lourdes Rizzatto/ Imagens: Arquivo Kelcy Ferreira e redes sociais |
Kelcy Ferreira apresenta “Alagoanas da Imagem”

 

O webinário “Alagoanas da Imagem” realizado neste mês de agosto, através da parceria entre o Alagoar – A Janela do Audiovisual Alagoano e a Cuidadoria do Ser foi encerrado após seis encontros com as produtoras culturais Larissa Lisboa, Kelcy Ferreira e Rosana Dias. A marca deixada pela força e representatividade feminina ao longo da história no mundo, no Brasil e principalmente em Alagoas trouxe à tona várias discussões sobre o fazer artístico nas artes visuais e no audiovisual. 

 

Em matérias passadas, o Click Due apresentou os temas do webinário comandados por Larissa Lisboa no audiovisual e Rosana Dias no audiovisual e artes visuais. A trajetória desbravadora de   mulheres que escreveram seus nomes na história e muitas que, ainda, continuam a deixar uma trajetória repleta de ensinamentos e inspiração, inclusive para uma nova geração que “respira e transpira” arte, foi colocada de forma motivadora. Nesta última matéria sobre o webinário veremos a psicóloga, especialista em arte educação e produtora cultural, Kelcy Ferreira, apresentar “fazeres e saberes”, trajetórias e obras de grandes mulheres que nos levam a refletir o quão grande e brilhante é o universo das artes visuais, especialmente em Alagoas. 

 

Kelcy Ferreira trouxe para discussão o fazer artístico e a riqueza cultural das mulheres originárias (indígenas) das etnias Pankararu, Xucuru Kariri e Kariri Xocó. Falou sobre personalidades que apresentaram um construir criativo repleto de histórias para Alagoas, valorizou trajetórias sólidas e “linkou” passado e presente a jovens determinadas e criativas. Ela fez questão de deixar em aberto um mosaico que é construído com várias linguagens nas artes visuais, para que não esqueçamos que também podemos fazer parte deste construir, basta querer!

 

Koram Xucuru, em oficina na Cuidadoria do Ser

 

Ao apresentar de forma leve a “Cuidadoria do Ser”, onde o processo de cuidar em vários estágios inclui proporcionar encontros, diálogos, práticas terapêuticas como a arteterapia Kelcy, também, revelou que o espaço foi inaugurado em setembro de 2019 com a participação de Koram Xukuru, da etnia Xucuru Kariri, deixando claro, até para leigos, que a importância dos povos originários não está apenas em sua ancestralidade, mas em todo um arcabouço construído por gerações e que nos remete tanto às nossas origens quanto ao nosso presente repleto de influências. 

 

Koram trouxe o “fio da meada” desta jornada das Alagoanas da Imagem com a força das mulheres originárias com o seu fazer artístico e cultural, com a produção de artefatos, mandalas, além de seus conhecimentos sobre plantas e ervas. Nazaré Pankararu, representando as originárias sertanejas, reflete a importância do “fazer” em coletividade (roça, construção de casas, pesca, rituais...). Vilma (Pankararu - sertão) e Vandete Ferreira (Kariri Xocó - agreste) mostram seu respeito pelo barro e pela herança continuada da tradição da cerâmica. 

 

Ao apresentar essa força feminina sobre as artes visuais, Kelcy convida a uma reflexão sobre séculos de falta de consideração a toda forma de conhecimento, arte e fazer dos povos originários em detrimento do que foi trazido e ditado como única interpretação de arte pelos europeus colonizadores. Ela também mergulha em um túnel do tempo onde uma linha muito tênue entre o século passado e atual, com vivências pessoais em Bienais, reportam exemplos de mudança de olhar para com os povos originários.

 

Os exemplos das 24ª (1998) e 30ª (2012) Bienais Internacionais de Arte de São Paulo visitadas por Kelcy foram citados para enfatizar que, em pouco mais de uma década, a arte originária passou de ausente a valorizada por curadores em grandes eventos. Saber que a Bienal de 2012 contou com obras de artistas originários e ouvir Kelcy dizer “isso para mim foi uma grande alegria porque as curadorias vêm trabalhando com novas perspectivas contemplando coletivos artísticos e pessoas que antes estavam fora dos circuitos de exposições” também me despertou para um olhar mais atento sobre a rica herança do passado, nossa postura no presente e nossa conduta futura para um Brasil mais respeitoso com a memória e o fazer ancestral de nações originárias que habitam esse país continental.

 

Foto redes sociais: Mestra Irinéia

 

O webinário destacou uma grande representante da mulher negra nas artes visuais, a remanescente de quilombola do povoado Muquém em União dos Palmares, a mestra ceramista e Patrimônio Vivo de Alagoas, desde 2005, Irinéia Rosa Nunes da Silva, que traz em sua história a herança do barro transmitida de geração a geração. 

 

Ao narrar a ligação de mestra Irinéia com a cerâmica, Kelcy inicialmente reporta-se a uma realidade comum a todos que se dedicam ao ofício da produção de utensílios domésticos, seja para uso em casa ou para comercialização em feiras livres. Mas, ao entrar em um universo criativo particular onde a confecção de personagens também ganhou o imaginário de mestra Irinéia, uma nova realidade é apresentada através de um trabalho autoral reconhecido por sua estética singular.

 

As “Cabeças”, obras de mestra Irinéia, ganharam visibilidade e impulsionaram uma produção criativa com formatos únicos de animais, mulheres amamentando e beijos entre casais, com destaque para a famosa obra repleta de simbolismo “A Jaqueira – Árvore da Vida” (obra criada após a enchente de 2010 que retrata os moradores do povoado empilhados e abrigados em uma jaqueira para conseguirem sobreviver à enchente). 

 

O reconhecimento do talento de mestra Irinéia como uma das grandes ceramistas do Brasil, com obras em galerias de Arte em todo o país, é algo que nos faz refletir sobre a emoção que o seu fazer criativo provoca no público e como esse despertar de sentimentos é construído desde a concepção até a entrega de cada obra. 

 

Observar, mesmo que através da tela do celular, o sorriso e o encantamento de Kelcy ao falar desta grande mulher que foi uma das finalistas do Prêmio Unesco de Artesanato da América Latina e Caribe, apresentou suas esculturas na Expo Milão e, em 2018, recebeu uma homenagem do governo do Estado de Alagoas ao ter uma réplica da sua obra “O Beijo” em escultura gigante na orla de Maceió (Lagoa da Anta, praia de Jatiúca) é também mergulhar em algo que amplia a nossa visão para as artes visuais. É compreender que não há arte menor quando somos tomados pela riqueza de fazeres e saberes. 

 

Visita das bordadeiras BordAzul à Ilha do Ferro.

 

A viagem das “Alagoanas da Imagem” apresentou um tom a mais de delicadeza ao relembrar Nise da Silveira e seu trabalho transformador com a criação de ateliês de artes dentro do Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, e ao expor a trajetória das bordadeiras do litoral norte de Alagoas (BordAzul) e da Ilha do Ferro (Art Ilha). O “toque transformador da arte” que proporcionou mudanças de saúde física e mental trazidas tanto pelo livre criar (Nise da Silveira) quanto pelo aprendizado do bordar histórias, vidas e sonhos (projetos desenvolvidos pelo Sesc Alagoas) revelaram-se também “remédio” que contribuiu para o despertar de almas e corações para um admirável mundo novo. 

 

 

Da esquerda para direita: Kelcy Ferreira, mestra Zezé, Maura e Tita. Exposição Casa Bordada, Crab Sebrae RJ, 2018.

 

O reconhecimento do público e o reconhecer-se como artista, inclusive com participações em exposições, a exemplo da Exposição Casa Bordada, no Rio de Janeiro(2018), que contou com a participação de todas as bordadeiras do Borda Azul ( Kelcy e três representantes do BordaAzul visitaram a exposição que faz alusão a uma casa, com todos os espaços bordados desde o teto, paredes, portas...) deixa evidente que é necessário provocar o olhar e a intenção, dos artistas e do público visitante ao questionamento que essa não é uma arte menor. 

 

Kelcy falou da sua pesquisa de dissertação de mestrado. Relatou que quando as mulheres do BordaAzul foram provocadas a olharem para o seu entorno para potencializar o seu fazer criativo, trouxe à tona a relação que esse “fazer artístico” tem com a própria vida dessas bordadeiras. “O despertar do olhar para as riquezas e delicadezas únicas dos saberes diários contribuiu para o que o ato de bordar trouxesse saúde física e mental, além de uma forte carga motivacional. Essas são mulheres que não frequentaram Academia de Belas Artes, mas quando provocadas realizam e produzem de forma muito original e viceral”, afirmou. 

 

Eva Cavalcante

 

Duas grandes mulheres das Artes Visuais e muito importantes para Alagoas, Eva Cavalcante e Eva Le Campion também tiveram seu merecido espaço no webinário “Alagoanas da Imagem”.  A linda história de Eva Cavalcante traz o “voar” de uma dona de casa que se redescobre e inicia um trilhar repleto de possibilidades nas artes visuais, é a prova de que o poder criativo está guardado em cada um de nós, independentemente do que façamos em nosso dia a dia, e a ação transformadora desse poder depende exclusivamente de estarmos abertas (os) a novas descobertas. 

 

Eva Le Campion com seu início nas artes visuais repleto de influências e seu construir criativo com recortes de seu trabalho realizados na Cruz Vermelha, em Maceió, foi apresentada por Kelcy de forma intensa. Pintura, desenho, escultura, mescla de materiais e a presença do barro foram colocados para apresentar uma mulher que tece significados em suas obras e que encanta na sua forma de expressar. 

 

Kelcy também apresentou a alagoana Terezinha Motta Lisboa da Fonseca que recebeu uma homenagem por sua dedicação à pintura por todas as mulheres de sua época que ficaram no anonimato, assim como o exercício de museologia e arte educação de Célia Paiva, os trabalhos “Antropomorfia – À sombra dos orixás” e a “Arte da Mediação e Curadoria ou Cuidadoria” de Alice Barros, e a trajetória de Maria Amélia, grande artista plástica e incentivadora da arte em Maceió, também foram destacadas. 

 

Jéssica Conceição

 

Na fotografia, a juventude teve seu devido reconhecimento através de Jéssica Conceição e seu olhar voltado à cultura popular alagoana e expressões culturais afro-alagoanas. Seu currículo traz a participação na 14ª Semana Nacional de Museus realizada pelo Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore com a exposição individual “O Baile Solto do Mané do Rosário”; A exposição coletiva entre “Panos e Ramos: Um Olhar Sobre as Rezadeiras Alagoanas” na 6ª edição do Festival de Fotografia Encontros de Agosto no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – Museu da Cultura Cearense, em Fortaleza; e a exposição coletiva de fotógrafos negros “Herança e Futuro” no festival de fotografia FotoRio Resiste (Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos – INP, RJ).

 

O primeiro coletivo alagoano de mulheres da imagem, “Punho Coletivo”, trouxe aos participantes do webinário o despertar para o fazer coletivo feminino nas artes visuais. Sua contribuição para a fotografia alagoana foi colocada de forma clara, mas também ficou evidente que a pluralidade dentro das artes visuais no coletivo é bem-vinda. Flávia Correia, outra jovem fotógrafa foi citada por Kelcy. Transitando entre o designer, fotografia, audiovisual e curadoria de exposições essa jovem traz no DNA a sensibilidade e criatividade para as artes visuais. Filha da escultora e mosaicista, Marta Arruda, ela descobriu seu próprio caminho, mas faz questão de sempre contribuir nos projetos da mãe, seja com seu olhar de designer na criação de catálogos ou de fotógrafa, registrando poeticamente o aço que é transformado pelas mãos da mãe artista. 

 

Marta Arruda

 

A artista Marta Arruda foi uma feliz escolha de Kelcy para finalizar toda uma narrativa em torno do “fazer” feminino no webinário, porque a história pessoal e a trajetória profissional dessa mulher gigante em superar desafios reverbera em cada mulher que luta por liberdade e igualdade em universos masculinos. Marta faz pulsar a sua arte, e seu generoso compartilhar conhecimentos com todos que desejarem aprender e isso transforma seu legado em sementes férteis que transformam vidas. 

 

Seu talento reconhecido nacionalmente, suas obras que encantam ambientes públicos e privados em Maceió, Arapiraca..., recortes de seus trabalhos no projeto Ateliê Aberto à comunidade realizado pelo Sesc, no qual Marta ministrou oficinas de escultura em aço em Maceió e Arapiraca, além de exposições memoráveis, foram detalhadas em sua trajetória de artista visual.  

 

A atuação de Marta Arruda como produtora cultural também recebeu seu devido destaque pelos belos trabalhos de arte na rua. Murais coletivos que encantam em bairros de Maceió e em Marechal Deodoro (viaduto da Praia do Francês) e sua participação no @todospelacidade deixaram a certeza que ainda teremos muito de Marta para Alagoas. 

 

Para artistas visuais, artes educadores, jornalistas, curadores, fotógrafas (os) e tantos outros profissionais que participaram do webinário, dois encontros de duas horas foram pouco e passaram muito rápido para compartilhar um conteúdo rico em experiências, informações e vivências pessoais repassadas por Kelcy Ferreira, uma maranhense que escolheu Alagoas para ser o seu Porto. 

 

Aqui, nós do Click Due, agradecemos a Kelcy Ferreira, Larissa Lisboa e Rosana Dias pelo convite a mergulhar neste rico universo feminino. Que os próximos webinários sejam igualmente relevantes em informações e no compartilhar vivências!

SOBRE O AUTOR

Blog sobre cultura e entretenimento em Arapiraca

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