Foto: Arquivo Pessoal
Leonardo Silva e esposa

Costuma-se dizer que quando uma criança vem ao mundo, nasce também um pai e uma mãe. No entanto, junto com todo o encantamento do momento, vêm o medo e a insegurança, principalmente por parte dos pais de primeira viagem, em relação às novas responsabilidades. Neste domingo, 9 de agosto, Dia dos Pais, o CadaMinuto ouviu os relatos de homens que estão passando por essa experiência em meio à pandemia do novo coronavírus, quando esse caldeirão de sentimentos ganhou amplitude. 

Segundo a psicóloga Keila Cristine, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e atendimento a Crianças e Adolescentes, a pandemia também envolve questões de muitas perdas e sentimentos que fazem a proteção e cuidado ficarem mais exacerbados, uma vez que toda a realidade vivida anteriormente precisa ser adaptada às novas medidas de proteção, onde beijos e abraços são raros e o pai que precisa sair de casa traz todo um peso, uma carga de culpa e temor de estar trazendo o vírus para dentro do lar e, principalmente, para seu bebê. 

“Essa nova forma de viver acaba prejudicando as relações afetivas, seja pelo excesso de zelo ou pela limitação desse cuidado, já que a pandemia impõe esse distanciamento físico. É importante ter as coisas claras e todo o conhecimento dos cuidados com a higiene, no entanto, tem que haver um limite, pois caso contrário, as relações de afeto tendem a ficar prejudicadas, já que, de uma forma consciente ou inconsciente o pai acaba se afastando do próprio filho ou da esposa, por medo de poder vir a contaminá-los. Não podemos deixar que o medo seja maior que o sentimento de cuidado, de afeto, devemos sim ter todos os cuidados, mas exageros para não virar uma neurose e distanciar a família”, orienta Keila. 

Psicóloga Keila Cristine

A psicóloga alerta que o que adoece as relações - e principalmente os pais que precisam sair para trabalhar - é o medo de pegar o filho no colo, se aproximar e para o próprio pai é desolador viver nessa gangorra de emoções. Porém é preciso que os pais tenham consciência dessas emoções que vêm à tona por conta da pandemia, se cuidem, mas não deixem de acompanhar o crescimento do filho. 

“A ansiedade é normal, mas não em demasia, e neste cenário é natural, mas precisamos estar atentos para que não saia do controle. Os pais precisam se dar a oportunidade de viver esses primeiros meses da vida de seus filhos de uma forma mais próxima e, se houver um temor muito intenso se recomenda a busca de um profissional, para que esse pai possa usufruir de uma forma saudável a convivência com seu bebê”, prosseguiu. 

Motivos para agradecer 

Pai de primeira viagem, David Lima, funcionário público e publicitário, comentou que ele e a esposa decidiram em janeiro deste ano ter o primeiro filho, antes de a pandemia ter se tornado notícia: “A sensação de comemorar o primeiro Dia dos Pais sem aglomeração é um tanto estranha e um pouco frustrante, mas não decepcionante, pois, tenho mais motivos para agradecer do que para reclamar: o bebê (ainda não sabemos o sexo) está bem, graças a Deus; meus pais e toda a minha família estão bem; reuniões em família podem esperar, e estamos vivos e com saúde em meio a toda essa crise”. 

Para David, a principal arma que temos que ter em casa, nesse momento, é inteligência emocional para lidarmos com tudo isso, mesmo tendo perdas diretas ou indiretas. “Acho que não podemos nos entregar e perder a guerra, mesmo que alguns tenham perdido algumas batalhas. Precisamos resistir com uma visão otimista do futuro. Um novo ser humano virá sob meus cuidados e preciso estar firme e forte, tanto fisicamente, quanto emocionalmente, para cuidar dele da melhor forma possível”, completou. 

O pai de primeira viagem prosseguiu falando que uma das maiores preocupações que tem é em relação ao mundo que o filho irá encontrar, com o aumento exagerado do egoísmo das pessoas com o passar do tempo. “Não se pensa mais no coletivo e a sensibilidade humana está entrando em extinção. A frieza com que um ser humano tira a vida de outro ou tira vantagem do outro, independente do dano que possa causar, é algo assustador e bizarro ao mesmo tempo. Tenho medo do ser humano ser responsável pela própria extinção, literalmente falando. Espero que meu filho cresça preparado para, como diz uma amiga minha, esse ‘mundo cão’ em que vivemos”. 

David Lima

Para pais de primeira viagem ou não, as comemorações deste domingo serão bem diferentes do habitual. David comentou que irá comemorar a data com o pai, em forma de “rodízio”. 

“Combinamos uma determinada hora para cada um dos três filhos e a média de permanência na casa dos nossos pais, sempre tomando os devidos cuidados. Não optamos pela comemoração virtual porque já fazemos reuniões on-line com certa frequência e para reduzir um pouco a ‘saudade visual e auditiva’. Apesar de ainda ter certo receio do encontro presencial, por meus pais fazerem parte do grupo de risco, decidimos fazer o rodízio pelo tempo que estamos afastados e pela preocupação também psicológica do estado emocional deles”, concluiu o funcionário público. 

Pai presente 

O auxiliar de farmácia, Leonardo Silva, que também aguarda a chegada de seu primeiro filho, disse que é uma honra poder comemorar o primeiro Dia dos Pais. “Sinto-me uma pessoa realizada e feliz demais, minha vida acabou de ficar completa. Quero ser para o meu filho o que o meu pai nunca foi para mim. Quero ser um pai presente , amoroso, carinhoso e espero saber educar a criança para que siga no caminho correto e também saber repreender, no momento certo”. 

Ao ser questionado sobre a situação atual, Leonardo comentou que, independente da pandemia, pretende orientar o filho para que saiba aproveitar cada momento e cada segundo das coisas boas que o mundo oferece e que saiba olhar para o mundo com outros olhos. 

Sobre como irá comemorar o primeiro Dia dos Pais, o auxiliar de farmácia disse que será ao lado da família da esposa, “onde ganhei um pai, que é meu sogro. Não vou à casa do meu pai, pois não tenho contato com ele há anos”, pontuou. 

Distante, porém perto 

Já para os papais que estão longe de seus filhos, a da psicóloga Keila Cristine para este domingo é que, por meio das mídias sociais, eles aproveitem esse dia, expressem os sentimentos e recebam esse amor como se fosse presencial. 

“Essa demonstração precisa ser feita. O que vai diferenciar é o toque, mas o sentimento está aí e o lado positivo é que, mesmo à distância, de alguma forma eles são felizardos por demonstrar todo o afeto e amor e poder guardar esse abraço para o momento que pudermos viver tudo isso. O distanciamento é uma grande prova de amor e cuidado com aqueles que amamos. Busquemos essa adaptação, porque tudo vai passar”, concluiu a especialista.