Os números que retratam a gravidez precoce durante a adolescência mostram uma realidade dura para as jovens mulheres. Dados divulgados pelo Núcleo de Saúde da Mulher da Secretaria de Estado de Saúde de Alagoas (Sesau) apontam que, em 2018, foram registradas 8.818 gestações em mulheres na faixa etária de 12 a 18 anos e 7.816 em 2019.

Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mostra ainda que o Brasil possui 68,4% dos bebês nascidos de mães adolescentes a cada mil meninas de 15 a 19 anos, diz relatório. 

Ainda segundo a OMS, o índice brasileiro está acima da média latino-americana, estimada em 65,5%. No mundo, a média é de 46 nascimentos a cada mil. A América Latina é a única região do mundo com uma tendência crescente de gravidez entre adolescentes menores de 15 anos.

Anualmente cerca de 18% dos brasileiros nascidos são filhos de mães adolescentes e muitas meninas e adolescentes precisam abandonar a escola devido à gravidez.

Alagoana Náthaly Roana foi mãe aos 17 anos

 

Ao Cada Minuto, a jovem Náthaly, que é mãe do pequeno Nathan Alysson, de apenas 2 anos 6 Meses, contou que ao descobrir que estava grávida ficou surpresa e teve medo que a frase que boa parte dos pais costumam dizer viesse a se concretizar. 

“Eu fiquei muito surpresa, pois meus pais falavam muito que, caso eu engravidasse, eles me colocariam para fora de casa, mas foi totalmente diferente, tanto é que uma das pessoas que esteve ao meu lado durante todo o início da minha gestação foi a minha mãe, somente depois que meu pai foi se aproximando”, contou a jovem. 

Questionada se tinha vontade de ser mãe, Náthaly disse que não havia planos para algo tão próximo. “Todas as mulheres têm um sonho de ter um filho, mas não estava nos meus planos”. 

Atualmente, Náthaly está separada do pai de seu filho, mas garantiu que seu ex-companheiro sempre esteve por perto. “Antes nós mantínhamos um relacionamento, mas agora há pouco a gente decidiu se separar, mas sempre ele esteve presente, durante minha gestação e também durante todo o meu pré-natal, o que foi importante”, disparou. 

A jovem contou um pouco da sua rotina e disse que o fato de ser mais nova do que a maioria das mães não faz dela uma pessoa menos responsável. “A vida de mãe não é fácil, pelo contrário, ela é muito difícil, mas acredito que não há diferença entre uma mãe mais velha e uma mãe mais nova, eu mesma me considero bem responsável, pois é necessário ter cuidado e a gente acaba aprendendo”, finalizou.

O pensamento mágico na adolescência

 

Foto: Assessoria

A terapeuta sexual e psicóloga-sexóloga, Chris Cavalcante, revelou que a sexualidade na adolescência tem algumas características muito peculiares e que esse conjunto de atitudes e comportamentos nessa faixa etária fazem parte da síndrome da adolescência normal. 

“Um desses comportamento é o que chamamos de pensamento mágico. O adolescente, principalmente o da atualidade, que está extremamente receptivo a ter muitas informações. Hoje não existe restrição a informações, portanto muitas vezes essas informações, elas não se conectam com o processo educativo, e inclusive de mentalidade do adolescente, então ele acaba tendo a incoerência entre a gama de informação a que ele tem acesso e a prática dessas informações. Nesse sentido o adolescente acaba criando a ideia do pensamento mágico, de que não vai acontecer com ele. Foi só uma vez, foi pouquinho, foi rápido, entrou só uma parte, ele não ejaculou dentro, então ele cria essa história como se ela fosse proteger", disse Chris. 

A terapeuta disse ainda que é necessário trabalhar a educação sobre sexualidade e que ela deve começar dentro de casa. "Para que possamos criar uma consciência expandida, de forma real, não hipócrita, da questão da sexualidade nessa fase e também que a escola pudesse abraçar essa causa, mas que pudesse abraçar verdadeiramente e não fazer de conta que tem o projeto de educação e sexualidade com palestras isoladas, que fale apenas dos conteúdos perigosos do sexo. Muitas vezes é feito uma palestra fria sobre doenças sexualmente transmissíveis, mas o adolescente que vive o pensamento mágico acha que tudo aquilo está muito distante dele, ele não internaliza aquelas informações, pois ele vive uma sexualidade focada para o prazer e para o bem-estar”, complementou.

Quando o corpo da mulher está preparado para viver uma gestação?

 

Foto: Assessoria

A ginecologista obstetra da rede Hapvida, Cláudia Pinto, explicou que, atualmente, as adolescentes têm uma menarca mais precoce, ou seja, menstruam mais cedo, com isso gera mais risco de engravidar e que nessa fase há uma tendência das adolescentes se afastarem dos pais, tornando o diálogo mais difícil.

“Com o desenvolvimento das tecnologias, acesso a informações pela internet, as adolescentes estão ficando cada vez mais maduras precocemente. Elas acabam procurando na internet os auxílios sobre relação sexual, puberdade e acabam a aprendendo de forma equivocada”, disse a médica. 

Cláudia também explicou que outro fator é a não ida ao ginecologista. “As mães também estão retardando de levar as filhas ao ginecologista, algo aliado ao tabu de conversar sobre sexualidade”. 

Questionada sobre quando o corpo da mulher está pronto para reproduzir, a ginecologista disse que a partir da primeira menstruação, no 14º dia, a adolescente já começa a ovular e já pode engravidar, porém o corpo ainda não está preparado para viver uma gestação. “O ideal é a partir da fase adulta, lá pelos 23 anos, quando o organismo já vai se adaptar melhor a uma gravidez”. 

A especialista frisou ainda que quanto mais cedo o primeiro parto vier, maior o risco em relação ao feto e ao desenvolvimento da gestação. “Gravidez precoce aumenta o risco de contrair pressão alta, diabetes e ter complicações durante o parto e até durante a gestação, pois o organismo da adolescente não está preparado para a primeira fertilidade. A gravidez na idade certa proporciona uma gestação segura e com menos risco”, finalizou.

*Sob supervisão da editoria