Olá, pensadores!
Sobre o programa "Mais Médicos" e sobre a chegada dos médicos estrangeiros ao Brasil e a reação da classe médica brasileira, algumas coisas precisam ser analisadas.
Uma coisa são os médicos brasileiros, da rede pública, lutarem por ter melhores salários, melhores condições de trabalho, pleito que, observados certos limites, julgo ser legítimo. Outra coisa, é tratarem com hostilidade os médicos estrangeiros que estão vindo ao Brasil por conta do programa Mais Médicos.
Quando o assunto é "médicos cubanos", a coisa se complica ainda mais: não sabemos, com especificidade, em que consiste esse acordo Brasil-Cuba, nem se os médicos cubanos estão vindo para cá forçados, se estão sendo submetidos a trabalho escravo, se são vítimas da ditadura, o que tornaria ainda mais reprovável o comportamento da classe médica brasileira.
Suponhamos que qualquer das hipóteses acima seja verdadeira. Os médicos brasileiros estarão hostilizando vítimas, reais ou ideológicas, de um sistema obsoleto e cruel. A ordem é: aceite ou perca o seu emprego.
Mas, em supondo que nenhuma delas seja verdadeira, e que os médicos cubanos, servidores públicos daquele País, tenham aderido voluntariamente ao programa e aqui estejam para trabalhar. Imaginem, ainda, se vivendo num país sem perspectiva alguma, os cubanos se sintam seduzidos por trabalharem na democracia brasileira. O que tem haver esse "aceite" com a luta dos brasileiros por melhores "condições" de trabalho? Não deveria ser o contrário? Tentar convencer os estrangeiros de que, do jeito que está, não tem como trabalhar? Uma coisa é lutar pelo público, outra coisa é lutar pelo particular, pela reserva de mercado.
Sobre os médicos cubanos perceberem seus salários através do governo da Ilha, a coisa não me parece ser tão estranha quanto pintam. Imaginem a seguinte situação: o governo brasileiro abre seleção para interessados a trabalharem num programa de saúde na África, programa que contará com ajuda financeira de organismos internacionais. O governo brasileiro prometerá a cada médico um valor "x", como gratificação pela adesão ao programa, independentemente de quanto receba pelo programa. Há algo de estranho nessa situação? Pelo contrário, ela é até comum.
Por exemplo, nas Polícias Militares, inúmeros PMs, inclusive médicos, se engajam em missões de Paz, exatamente nessas condições. Nas universidades, professores e alunos se engajam em programas similares. Não quero defender o regime de Cuba. Longe de mim! Mas, esse argumento do repasse de salário intermediado pelo governo, para desqualificar a ação, é fraco demais.
No mais, se a luta é realmente por uma saúde pública melhor para os brasileiros, o momento é de unir forças e não de criticar por criticar. Criticar porque é Dilma, criticar porque é PT, criticar porque é PSDB... Criticar porque não me agrada! Só quando deixarmos de lado, pelo menos um pouco, o nosso sempre prioritário interesse particular, estaremos prontos para defender bandeiras com verdadeiro interesse público. Enquanto isso não ocorrer, a bandeira pública que tantos defendem, ao vaiar os estrangeiros, por exemplo, é mera hipocrisia.