Olá, pensadores!
Particularmente, gosto dos meses de novembro e dezembro. Além da data do meu aniversário (25 de novembro), a efervescência do último mês do ano me deixa – como à maior parte de nós – numa espécie de “vamos correr, fazer o que tem de ser feito, porque o ano que vem é outra história”. É um efeito psicológico que a mudança do calendário tem o condão de fazer.
Se pararmos para raciocinar, vamos entender que, como quase tudo na vida, o “fim de ano” e o "natal" são apenas construções sociais deliberadas (para não dizer mal intencionadas). Construções essas que têm um alicerce muito mais comercial do que cultural. A televisão, os shoppings, as propagandas... Tudo converge para uma espécie de transe que nos leva às festas, às compras, à perda de limites do cartão de crédito e, por conseqüência, a começarmos o ano cheio de dívidas, mas com a sensação de "dever cumprido".
Passeando num shopping de Maceió, me peguei pensando nessa coisa de Natal. Os cristãos comemoram, no dia 25 de dezembro, o aniversário de nascimento de Jesus. Como já se sabe, o Cristo sequer nasceu num 25, muito menos num dezembro. Mas, era necessário uma data e a escolha pelo 25 de dezembro tem um motivo especial: a corrente prevalente diz ser nessa data que se comemora o nascimento do "Sol da Justiça", uma alusão ao solstício de verão.
De todo modo, temos percebido que o “dono da festa”, ao menos simbolicamente, tem perdido vertiginoso espaço nessa comemoração. O Natal parece muito mais a festa do Papai Noel – e até de suas renas – do que a festa que simboliza o homem que é marco e fundador de uma das maiores religiões do mundo.
E o engraçado é que o Papai Noel, originariamente, nada tem haver com a história de Cristo. O Noel é uma personagem lendária, inspirada na história de São Nicolau Tamaturgo, arcebispo turco que ficou conhecido por ajudar pessoas que se encontravam em dificuldades financeiras. O religioso, que usava batina, jogava sacolinhas com moedas de ouro pelas chaminés acesas dos casebres. A chaminé acesa era o sinal. Uma mente prodigiosa viu nessa historia a oportunidade e daí para a construção do rechonchudo de roupas vermelhas e saco nas costas foi um pulo.
Se nada tem a ver com a história de Cristo, passei a me perguntar: e o que “diabos” esse Papai Noel tem a ver com nossa história, com a nossa cultura? Por que, nesse calor que está torrando o nordeste e boa parte do Brasil, ao entrarmos num shopping center, como o que eu estava, deparamos com uma cena absurdamente artificial de gelo, neve, cachecol e trenó? Que construção cultural é essa que desafia, inclusive, nossas condições climáticas naturais? Cultura... De quem?
Não quero, aqui, desconstruir o imaginário coletivo que já fez do velho Noel um ícone obrigatório do Natal. Eu também, quando menor, esperava o bom velhinho deixar alguma coisa na minha cama. Mas, entendo que essa mentira cultural precisa ocupar – ao menos nas mentes das pessoas mais atentas – o local que lhe é devido: Papai Noel é um penetra, cheio de intenções bem determinadas: nos impelir ao consumo. É para isso que ele “cruza o mundo”, saindo do pólo norte, com seu trenó. Sua missão é somente essa! Faz isso, atropelando as culturas nacionais e criando essa cena esdrúxula.
Assim, já que temos de conviver, a cada ano, com a imagem do velhinho, que suas mentiras possam ser convertidas para algo verdadeiramente bom. Que pelo menos a intenção de São Nicolau (que tem mais a ver com o ideal cristão) esteja presente naqueles que vão usar a figura do Noel. Que pelo menos os presentes (materiais ou espirituais), pelas mãos de velhos gorduchos ou de jovens, de crianças ou de adultos, cheguem às pessoas que há tanto tempo estão com suas chaminés acesas.




