Olá, pensadores!
O carnaval é tido, pelos estudiodos, como a festa onde o fenômeno da inversão ocorre em sua forma mais palpável. Despimo-nos de nossos "eus" e encarnamos, com a ajuda de máscaras e adereços, outros que habitam nossos desejos. É no período momesco que o pobre se fantasia de rico; o ladrão, de polícia; o homem, de mulher; o tímido, de desinibido.
Trata-se, para os analistas acadêmicos do assunto, de uma espécie de escape, onde ocorre, deliberadamente, o esquecimento momentâneo de nossas personalidades e responsabilidades. As máscaras e fantasias reforçam este afastamento temporário, dando-nos a impressão de que, naqueles dias, somos personalidades, heróis, bandidos...
Fico imaginando como seria interessante se a idéia antropológica do carnaval rompesse a barreira do tempo, perdesse o tom de "brincadeira" e inundasse, de verdade, as nossas redes sociais e políticas. Se o mau e negligente cidadão decidisse pôr uma mascara de cortesia e prudência. Se o credor implacável fosse mais complacente com o devedor. Se o intolerante racial, sexual ou religioso se fantasiasse com aceitação à diversidade. Se o apático se vestisse de fiscalização e cobrança.
Penso nos políticos mensaleiros, vestindo a fantasia de probidade, se enfeitando de respeito ao cargo e, de quebra, usando um pouco de vergonha na cara. Ou nos gazeteiros mascarados de pontualidade e assiduidade. Os insensíveis administradores públicos fantasiados de comuns do povo, com direito, como alegoria, a barraco em encosta e à casa alagada.
Gostaria de ver ministros de Estado vestidos de honestidade. Magistrados fantasiados de justiça célere e efetiva, sem temer o CNJ. Os candidatos a cargo eletivo, de seriedade. Os funcionários públicos, de compromisso. Patrões, de compreensão. Empregados, de lealdade. Os ricos, de desprendimento. Os saudáveis, de compaixão. Os fortes, de disponibilidade.
Seria legal também, nesse carnaval, ver o trabalhador, que acorda de madrugada e enfrenta o desumano transporte coletivo, fantasiado de político, adornado de terno Armani, com motorista e limusine. O que enfrenta jornada de oito, dez ou doze horas por dia, vestido de meio expediente. O usuário do bolsa família, pagando a conta no Wanchako. O filiado do sistema único de saúde, como cliente vip do Albert Einstein ou do Sara Kubistchek. Não seria legal? Ou isso que penso não passa de fantasia de carnaval?
Pois é. Não sei se verei alguma das alegorias que imaginei. Aliás, acho que não. O que constatarei, ao certo, é um povo alegre e festeiro que, a despeito de todo o descaso de seus líderes, insiste em fazer dos quatro dias de carnaval uma pausa na dura e sofrida realidade cotidiana.
Homens e mulheres que, se fossem às urnas com a mesma disposição e consciência com que vão às ruas, atrás dos blocos, poderiam de fato fazer cair as máscaras dos saláfrários que não fazem nada, além de viver "jogando confete e serpentina", às nossas custas, como se a vida fosse um eterno carnaval.