Olá, pensadores!

Criada no ano de 1990, a Fundação José Sarney, sediada em São Luís, tinha a missão de manter viva a memória do ex-presidente da República e atual presidente do Senado, José Sarney. Na verdade, muito mais que um monumento de autoexaltação ao coronel maranhense, a entidade era uma espécie de mecanismo de cooptação de recursos, em prol, claro de seus administradores.

Mantida, basicamente, por doações de empresas particulares, a Fundação José Sarney sempre contou com uma “ajudinha” do governo maranhense e, também, do governo federal. A sede da entidade, o suntuoso Convento das Mercês, tombado como patrimônio histórico e artístico nacional, passou, em 1990, por uma pequena reforma onde foram gastos R$ 9 milhões e, logo em seguida, foi “cedido” à família Sarney.

Naquele ano, a Fundação Sarney, que já havia se envolvido em esquemas fraudulentos, protagonizou um escândalo onde foram desviados mais de R$ 500 mil da Petrobrás. A estatal federal decidiu patrocinar um projeto que pretendia digitalizar os mais de 200 mil documentos do acervo da fundação. O resultado do investimento foi a distribuição do dinheiro entre empresas fantasmas e outras pertencentes ao clã de Sarney (como o grupo Mirante de comunicação) e, absolutamente, nenhum documento foi digitalizado.

Nesse mesmo ano, José Sarney anunciou o fechamento da fundação, alegando crises financeiras criadas pelas “denúncias caluniosas da imprensa”, que havia afastado os doadores. Que fechar que nada! A fundação continuou aberta e, pasmem, passou a “alugar” sua sede, patrimônio histórico e artístico nacional, para festas de jovens e raves. E não é só: parte da sede da Fundação foi alugada pela Secretaria Estadual de Educação do Maranhão que pagava cerca de R$ 10 mil por mês aos dirigentes da fundação. É isso mesmo: o prédio do governo alugado pelo governo! E ainda tem mais: a governadora Roseana Sarney publicou, no DOE do Maranhão, agora em 2011, que o governo daquele Estado iria pagar, à fundação, R$ 350 mil a título de aluguéis atrasados. Todas estas informações foram devidamente publicadas pela mídia, com destaque para a cobertura feita pela Folha de São Paulo.

Pois bem. Achando pouco, como é praxe de quem se instala no poder e faz da coisa pública o que bem entender, a governadora Roseana Sarney, hoje, conseguiu aprovar uma lei que estatizou a Fundação José Sarney. Em outras palavras, agora é responsabilidade do Estado do Maranhão – que só pode ter recurso sobrando, a despeito de seus péssimos índices sociais – manter financeiramente a “ilibada” instituição. Financeiramente, apenas. Porque, administrativamente, é de competência de Sarney, patrono da fundação, indicar parte de seus dirigentes. E, na morte dele, a prerrogativa da indicação será de seus herdeiros.

De acordo com o balancete dos anos anteriores, estima-se que o governo do Maranhão gaste, por ano, cerca de R$ 1,2 milhão para manter a “memória” de Sarney, dinheiro que será gerido pela própria família Sarney, do modo que melhor lhe aprouver. Afinal, alguém tem dúvida sobre quem deve compor a administração da fundação?

A base aliada de Roseana, na assembléia do Maranhão, aprovou o projeto sob o principal argumento que a “homenagem a Sarney era justa". Justa? Façam-me o favor! Nem justa, nem legal, ferindo de morte a Constituição Federal que elegeu, como um dos princípios da administração pública, a moralidade. Ora, se a bendita fundação tivesse uma história imaculada e fosse dirigida pelo mais honesto dos homens, ainda assim, não poderia gozar das prerrogativas que hoje entregaram ao Mausoléu Sarney. Que se dirá de uma entidade que, desde seu nascimento, regurgita na lama e serve como fachada para os interesses escusos da oligarquia maranhense?

Para tentar escamotear o “presente” que ganharam, os Sarney decidiram mudar o nome da fundação. Paradoxalmente, ela passa a se chamar, a partir de hoje, de “Fundação da Memória Republicana Brasileira”. Parece que fizeram de propósito! Não poderiam ter escolhido nome pior... O Estado do Maranhão, hoje, deu uma prova clara que a res publica é só uma ficção posta na Constituição. Lá, no Maranhão, o patrimônio público tem dono para sempre, amém!

 

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