Olá, pensdores!
Estamos cientes da anormalidade do fato, mas, até hoje, a notícia do jovem que resolve viver seu grande dia de mórbido estrelismo, no geral, o último de sua vida, parecia algo muito distante, improvável de ocorrer entre nós. Esses indivíduos, que invadindo escolas ou creches, ao acaso da sorte e pontaria, vitimam a tantos quantos estejam na mira de suas incontidas armas ou se limitam à descarga completa de seus arsenais, pareciam protagonistas de cenas nos Estados Unidos ou na Europa, nunca aqui, no Brasil.
Basta lembrar da cidade de Winnenden, na Alemanha, que foi palco para um desses espetáculos de terror, em março de 2009. A cidade lançou, no rol das lembranças indesejáveis e dos porquês irrespondíveis, o jovem Tim K., de imaturos 17 anos. Com uniforme militar, ele invadiu a escola da qual foi expulso (por ter forjado um atestado médico) e lesionou fatalmente duas dezenas, dos quase mil alvos vivos que tinha à sua frente na hora da assombrosa cena. Fez lembrar o caso mais emblemático de assassinos que invadem escolas, o do “Massacre de Virgínia Tech”, estrelado e dirigido pelo estudante sul-coreano Cho Seung-Hui que matou, assemelhadamente, 32 pessoas em abril de 2007 nos EUA.
Mas isso tudo estava tão longe, que nós, brasileiros, assistíamos a esses massacres como se fossem coisas de Hollywood. Fazendo relembrar o caso do estudante de medicina que, em 1999, invadiu um cinema e matou quatro pessoas, hoje tivemos mais uma indesejada produção brasileira desse gênero. No palco de Realengo, na cidade do Rio, o protagonista Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, um ex-aluno da Escola Municipal Tasso de Oliveira, local onde escolheu seus algozes, fez suas vítimas: frágeis e indefesas crianças.
Em uso ardiloso de suas perturbadas ou perversas maquinações mentais, esses “astros patológicos” incorporam ídolos virtuais, apreendidos dos jogos digitais de acesso livre, ou repetem, por pura imitação, o ato de predecessores reais que conseguiram a imortalidade memorial, ainda que repugnante, ao executarem suas chacinas alheiamente desmotivadas ou por motivos torpes, injustificáveis.
Rubricando sua carta de “apresentação” ao mundo com o sangue de inocentes e com o próprio (geralmente, no ato final, matam-se, como fez Wellington, ou são mortos), é como se dissessem: “Olá, vocês fingiram não me ver. Mas eu estou aqui! Esse é meu espetáculo, e esse é meu elenco: seus filhos, sobrinhos, amigos... Meras vítimas coadjuvantes da minha história que ‘começa e termina’ hoje”. Se portam como se quisessem atrair a atenção dos outros, toda a atenção que julgam não ter recebido, escolhendo para isso a forma mais traumática, a mais covarde. Wellington, em sua carta de despedida, demonstrou sinais de patologia mental e de fanatismo religioso.
Porém, diferençar o que é, de fato, patologia mental, transtorno de personalidade e o que é mera deliberação de perversidade é tarefa difícil. Certamente, desse ofício se incumbirá a psicologia e a psiquiatria, tentando sondar e diagnosticar se, de fato, é alguma enfermidade da psiquê que acomete esses jovens e os faz, numa fração de segundos, ir do completo anonimato (ou esquecimento) ao total anti-sucesso popular, ou se, do contrário, tratam-se de mentes sãs, tomadas, apenas, de severa má intenção ou de transtorno.
É que, meus amigos, ainda que entenda que a sociopatia ou o transtorno de personalidade não significa a perda das faculdades intelectuais, não me parece aceitável a idéia de se considerar apenas "doente" ou "transtornado" quem premedita tão bem o ato criminoso que vai praticar. A dureza do crime e a sua calculada prmeditação nos impede de reconhecer o autor de uma atrocidade como vítima de doença ou transtorno.
É bem verdade que, em sua maioria, tais aparentemente inesperados atores (um pode ser o seu filho) dão sinais, por ação ou omissão, dos atos que pretendem encenar. No caso de Wellington, sua irmã reconheceu que ele vinha apresentando um comportamento estranho. Esse comportamento foi negligenciado por ela, assim como nós, talvez, estejamos negligenciado em nossos lares sinais similares já que, confessemos, o corre-corre dos dias atuais faz não sobrar tempo para acompanhar e, se necessário, censurar essa ou aquela cena, ou a obra no total, dos nossos filhos ou irmãos.
Como já se sabe, Wellington não tinha mais pais. Mas, temos que reconhcer que, hoje, a principal influência de formação de uma criança não é mais a conversa com os pais, nem com os professores. Hoje o computador, a internet, os jogos eletrônicos e os deturpados reclames por “espaço”, por privacidade, por não terem seus assuntos pessoais vasculhados pelos pais têm formado uma geração de crianças e adolescentes que se perde em valores e de pais omissos.
Não estou dizendo, nem posso por desconhecimento de causa, que Wellington foi criado assim e por isso fez o que fez. Mas, sem dúvidas, em algum momento, houve a ausência de alguém o que culiminou neste ato descontrolado para chamar a atenção de tanta gente. Também, é inegável reconhecer que se inspirou em exemplos passados e numa deturpada idéia de religão, para repetir o ato e "justificá-lo".
Não se trata de culpar os pais, apenas, mas de alertá-los. Alertá-los para que não sejam amargamente surpreendidos, ao verem suas crias recebendo, in memoriam, um pesado e funesto Oscar na categoria “pior atuação”, como esse que entregamos a Wellington Menezes de Oliveira, neste 7 de abril de 2011.