Olá, pensadores!
O escândalo envolvendo os religiosos, em Arapiraca, teve escrito mais um capítulo, neste último fim de semana, quando os integrantes da CPI da Pedofilia estiveram no município, colheram depoimentos dos acusados, de testemunhas e das vítimas, e decretaram a prisão temporária do Monsenhor Luiz Marques.
Não há dúvidas que a decisão do presidente da Comissão Parlamentar, Senador Magno Malta, em adotar tal medida cautelar foi acertadíssima. A detenção interina não visou atingir o religioso, nem o homossexual: ela se destinou a assegurar que o suposto pedófilo responda pelos atos que praticou.
A ligeira comoção que quis contagiar parte dos fiéis, que insistem na desnecessidade da contenção do acusado, não se sustém. Se o pedófilo fosse um qualquer, haveria tais protestos? Lembremos: para caracterizar o crime, nosso direito penal é o do fato e não o do autor. Este último só é usado na aplicação da pena.
Entretanto, superadas essas questões de Direito, entremos noutra, mais importante: a verdadeira prisão do padre. Inúmeros escândalos sexuais, há tempos, maculam a história da Igreja Católica Apostólica Romana. Religiosos envolvidos com mulheres, com homens e com crianças, atestam a impraticabilidade de um dos dogmas mais importantes da ICAR: o celibato.
Frise-se, a efetiva prática sexual hetero ou homossexual, com pessoa maior, viola o celibato, apenas. A pedofilia, além de proibição canônica, é ato punível, que gera dano à vítima. O celibato não induz a qualquer das orientações sexuais, nem ao transtorno da pedofilia. Mas, é preciso reconhecer que a abstinência sexual forçada, que contraria a própria lei do organismo – que produz sêmen e precisa expeli-lo – propicia a marginalidade eterna do sacerdote que, como homem comum, tem necessidade natural e divina por sexo.
Instituído no ano 390 (ou seja, a igreja viveu quase quatrocentos anos sem), o celibato, àquela época, talvez, tenha sido útil aos religiosos sujeitos a árdua e severa perseguição. Mas, hoje, ele é muito mais um fardo que um princípio clerical. Aliás, os princípios sacerdotais não são e nunca foram incompatíveis com o casamento, tanto é que Pedro (considerado pelos católicos como primeiro Papa) era casado e tinha sogra. Paulo, o grande escritor das epístolas e precursor do cristianismo, aconselha diversas vezes ao aspirante à vida episcopal que tenha um bom casamento e uma boa condução de sua casa e filhos.
Na verdade, o celibato, além de conveniente aos interesses patrimoniais da Igreja, tem servido, durante os anos, como “armário” a muitos jovens que, na tentativa de camuflar sua orientação sexual e de evitar o enfretamento com a família, amigos e sociedade (o que nem sempre é fácil), abraçam a batina, como fuga. Depois, estes a usam como manto para as suas sempre existentes necessidades sexuais. Pudesse o padre casar, creio, nenhum se manteria solteiro e o fugitivo não teria onde se esconder. Ressalvemos, nesse caso, os pouquíssimos verdadeiros vocacionados à vida sacerdotal celibatária, não imposta, que acredito haver. Mas, para a igreja, até hoje, tem sido mais vantajoso lidar com os escândalos, que tomar uma posição bíblica e racional, extinguindo essa regra falida.
A prisão do Monsenhor Luiz Marques, neste fim de semana, é nada se comparada à clausura que ele escolheu para si quando se tornou sacerdote. Prisão da qual ele fugia à sorrelfa a cada ato sexual sorrateiramente praticado. Ele, e tantos outros religiosos ainda não descobertos, são prisioneiros de uma masmorra medieval que os aflige na carne a todo instante. O celibato é um calabouço velho de colunas podres que o Vaticano sabe – e os escândalos mostram – não detém ninguém... Mas que é mantido sob a fajuta, mentirosa e enganadora afirmação de que ele ainda é dos pilares fundamentais da Igreja Católica.