Lauthenay Perdigão

Os desacreditados vice-campeões da Copa de 1950

13628817661950 final da copa zizinho e maspoli

Maracanã, 16 de julho de 1950. Augusto, capitão da Seleção Brasileira, surgiu no túnel e as duzentas mil pessoas que lotavam o estádio quase entraram em delírio. Aquela tarde de domingo tinha sido reservada para o Brasil ser Campeão do Mundo. Bastava um empate contra os uruguaios. Mas, ninguém falava em empate. Afinal, o Brasil havia vencido o México por 4x0, a Iugoslávia por 2x0, a Suécia por 7x1 e a Espanha por 6x1. Um empate com a Suíça já tinha sido um erro de percurso. Era o que todos pensavam naquela tarde. O Maracanã também havia sido construído para a festa da vitória.

O jogo começou e os uruguaios foram resistindo. Resistiram o primeiro tempo e até os quatro minutos do segundo tempo, quando Friaça abriu a contagem para o Brasil. Um gol que quase desencadeou uma alucinação coletiva. Na Tribuna de Honra, trazendo na mão um pedacinho de papel, o velho Jules Rimet, Presidente da FIFA, ainda tentava decorar uma pequena saudação, em português, para quando entregasse a taça ao capitão Augusto. Contudo, dezessete minutos depois, os uruguaios empataram e, há nove minutos do final, fizeram o segundo gol. Um gol que provocou paradas cardíacas e tentativas de suicídios por todo o país.

Jules Rimet viu o jogo até o gol de empate. Em seguida, com a taça na mão, tomou o elevador para descer até o campo. No gramado, haveria uma guarda de honra e, perfilado ao lado dos campeões, ele ouviria o hino nacional. O empate favorecia ao Brasil e, quando Jules Rimet descia, o estádio se agitava como numa tempestade que se abate sobre o mar, e as vozes se avolumavam como os rumores de um furacão. Cinco minutos depois, quando o Presidente da FIFA chegou à boca do túnel, um silêncio de morte havia substituído todo aquele tumulto. Quando o jogo acabou, Jules Rimet se viu sozinho, com a taça na mão e sem saber o que fazer com ela. Terminou por descobrir o capitão Obdulio Varela e lhe entregou a taça sem nenhum discurso. A festa era dos uruguaios. Realmente, o 16 de julho de 1950, a partir daquele momento, entraria na história esportiva do Brasil como um novo dia de finado. O título a caminho de Montevidéu era mais que uma lição.

 

Flávio Costa e os jogadores, de heróis, transformaram-se em réus. O tribunal da opinião pública os condenou como autores de um crime monstruoso. O crime de perder a última batalha. E o Maracanã, construído para a vitória, somente para a vitória, ficou marcado para sempre pelo gol de Gighia. Uma lembrança eterna e triste de uma tarde que os Campeões do Mundo deixaram de ser campeões para ser pobres e desacreditados vice-campeões.

Árbitro de futebol

136226422076

Na verdade, o juiz de futebol tem problemas que ninguém tem. Ele, para exercer sua profissão, só tem dificuldades. A começar pela extensão do campo em que desenvolve sua atividade. Um campo de futebol tem de 100 a 110 metros de comprimento e uma largura que varia entre sessenta e quatro e setenta e cinco metros. Isso dá uma média de sete mil metros quadrados para o chamado campo de jogo, e que está sob a responsabilidade do árbitro.

Os árbitros são iguais em todo o mundo. Aqui, como em qualquer parte, não há complacência com os árbitros. Não há tolerância, não há o mínimo de compreensão e boa vontade. O que foi um erro, não encontra a menor desculpa. Na maioria das vezes, até o que está certo não é aceito, e é tido como errado. O bom árbitro é aquele que erra menos, que tem mais virtudes do que defeitos.

Os árbitros vivem por conta das simpatias alheias, dependem fundamentalmente da sorte, e só resistem os que possuem realmente qualidades excepcionais.

Para a torcida, todos os árbitros são ladrões. Acreditamos que muitos deles não são santos, mas ninguém pode duvidar da integridade moral da maioria dos árbitros. Todos vivem sob uma pressão constante dos cartolas. Estes sim, são os grandes culpados de toda confusão que é criada dentro do campo. Eles invadem o gramado, xingam o árbitro, fazem confusão, e no final, culpam a arbitragem pelos erros de sua equipe. Quando dirigentes e jogadores não querem, não há árbitro que leve a partida até o seu final.

Seria bom que antes de chamar o árbitro de ladrão, torcedor ou dirigente se colocassem em seu lugar, pois não é fácil ser árbitro de um esporte tão apaixonante como o futebol.

Dramas do futebol alagoano - Barra

1361736308cleistenes geninho e barra

Um dia, do ano de 1958, a tragédia transformou o Estádio Manoel Moreira em um palco de lamentações. Vítima de um destino cruel e surpreendente, o jovem Barra teve sua carreira cortada antes do estrelato. Era, na época, um dos mais promissores jogadores do futebol alagoano, despontando como grande artilheiro. Raçudo, rápido e brigador, de seus pés partiam verdadeiras bombas.

Contudo, uma tarde fatídica, terrível, envolveu-o numa trama sinistra, roubando-lhe um amigo e transformando sua vida, até então tranquila, num inferno real. Era o fim de uma carreira brilhante. Primeiro, tragado pelos dedos frios da morte. Segundo, pela desgraça involuntária de uma dor sem precedentes.

Em princípios de 1958, uma seleção alagoana foi à Capela para uma partida amistosa, num dia festivo para o povo daquela cidade alegre e acolhedora. Quando o Capelense já vencia de 4x1, Botinha lançou uma bola em profundidade entre Orizon e Piolho. Barra se infiltrou entre os dois zagueiros e ganhou na corrida. O goleiro Ozório saiu de sua meta e chegou junto com o atacante da seleção na hora do chute. Houve um choque e os dois caíram. Barra se levantou. Ozório que havia caído por cima da bola, continuava no chão. Era o início do drama. Sentindo que havia algo errado, o juiz Waldomiro Brêda chamou o médico. O goleiro foi retirado do campo e levado para a casa de sua noiva.

O jogo prosseguiu com Zacarias no gol do Capelense. Dez minutos depois, veio a trágica notícia. Ozório estava morto. Barra, surpreendido, começou a chorar. Eram lágrimas sinceras. Ozório tinha sido seu companheiro no juvenil do Tiradentes. Sempre foram bons amigos. Mas, o destino tinha sido injusto com Barra. Involuntariamente, levou-o a ser o carrasco de um amigo.

A notícia triste fez com que o jogo fosse encerrado. A torcida do Capelense não se conformava com a morte de Ozório e queria pegar o Barra, como se ele fosse culpado pelo acontecido. O atacante começou a viver momentos dramáticos. Para sair de campo, foi necessária a intervenção do presidente da Federação, Major Kleber Rodrigues, e do técnico da seleção, Sargento Madalena.

A viagem de volta para Maceió foi longa e penosa para todos, particularmente, para Barra. A estrada parecia não ter fim. Durante vários dias, o atacante não dormiu e não comeu. Perdeu todo entusiasmo pelo futebol e pela vida. Nunca mais voltou a jogar. Nunca mais foi o mesmo rapaz alegre e brincalhão. Começou a beber. Seu corpo começou a definhar e, um dia, a morte também veio buscá-lo mais cedo do que se esperava.

Barra foi vítima de uma dessas tragédias que nunca tem dia nem hora certa para chegar.

História da rivalidade ASA x CSE

136097469574

O torcedor paga por um espetáculo nem sempre compensador. O futebol não tem preconceitos, não faz distinção de raça ou cor. Arrasta milhões de adeptos e ninguém sabe quando eles se sentem bem ou mal. Se seu clube perde, seus extravasamentos atingem as profundezas das mais perigosas reações. Se o time ganha, a forma inversa desses extravasamentos vai aos píncaros da euforia.

A grande rivalidade do futebol do interior foi, durante muitos anos, entre o ASA de Arapiraca e o CSE de Palmeiras dos Índios. Um dos episódios mais dramáticos aconteceu em 1953. Começou com a decisão do campeonato matuto. O jogo foi realizado em Palmeiras dos Índios, numa tarde sem sol e com nuvens escuras no céu. Para apitar o grande jogo, o melhor juiz da época, Waldomiro Brêda. O jogo transcorria normalmente e o ASA vencia por 1x0. A chuva que caia em Palmeira dos Índios era cada vez forte. Aos trintas e cinco minutos do segundo tempo, a coisa se transformou em tempestade. Waldomiro Brêda foi obrigado a suspender o jogo.

Na mesma semana, a Federação Alagoana de Desportos programou para o domingo seguinte o restante dos noventa minutos para se conhecer o campeão. Jogados os dez minutos, o marcador não se alterou. Como o público pagou para assistir um jogo de noventa minutos, os dirigentes acertaram que os times continuariam jogando mais oitenta minutos de forma amistosa.

Foi nesse período que se deu a maior confusão dentro e fora de campo. A briga começou entre os jogadores que trocavam socos e pontapés. Fora do campo, um torcedor do CSE agrediu moralmente o presidente do ASA, Antônio Rocha. Como ele estava com um guarda chuva, deu uma cacetada no torcedor.

O tempo também fechou fora das quatro linhas. Uma verdadeira guerra sem soldados. Ninguém procurou contornar a situação. Nem podia. Todos davam e apanhavam. Para sair de Palmeira dos Índios, a delegação do ASA passou por vexames e humilhações. Afinal, o número de torcedores do CSE era bem maior do que do ASA.

A revolta em Arapiraca tomou conta de todos seus habitantes. Todos queriam uma forra. No dia seguinte, na segunda-feira, realizar-se-ia a famosa Feira de Arapiraca. Muitos caminhões começaram a chegar de Palmeira dos Índios carregando palmeirenses para comprar e vender mercadorias. O chefe de polícia de Arapiraca se juntou com o delegado e um punhado de torcedores, aqueles que mais apanharam em Palmeira dos Índios, foram para a entrada da cidade, a fim de esperar os caminhões. A forra foi dada ali mesmo.

Os caminhões eram parados pelas autoridades e seus policiais, e os arapiraquenses apontavam aqueles que estavam no estádio e na briga do dia anterior. Não adiantava dizer que havia engano. Era descer e apanhar.

Por causa desse episódio, durante muitos e muitos anos, ninguém de Arapiraca ia à Palmeira dos Índios e vice-versa. E tudo começou numa tarde bonita de sol em meio a uma festa pela conquista de um título de campeão.

ASA – Campeão Alagoano de 1953

O mundo dá muitas voltas. E nessas voltas, muitos fatos ressurgem como verdadeiras bombas. São detalhes contados de outros ângulos e que podem, até, modificar o rumo da própria história esportiva. Em depoimento para o Museu dos Esportes, o jornalista José Rodrigues de Gouveia fez uma declaração que, depois de alguns anos de pesquisas, fez mudar a história dos campeões alagoanos. Até 1982, a relação dos campeões alagoanos mostrava o Ferroviário como o campeão de 1953 e ninguém havia contestado.

Segundo Rodrigues de Gouveia, na época, Diretor do Departamento de Futebol do Interior, a Federação programou, paralelamente ao campeonato da Capital, o certame do Interior. Pelo regulamento, os dois campeões decidiriam o título Estadual. O regulamento determinava ainda que, seria um jogo na Capital, outro no Interior e, se necessário um terceiro, no estádio que tivesse dado mais renda.

O Ferroviário foi o campeão da Capital e o ASA, do Interior. Depois de conhecidos os vencedores, o diretor de futebol do Ferroviário, Chico, não quis cumprir o regulamento que ele mesmo tinha assinado antes do início do campeonato. A Federação deu um prazo para o clube esmeraldino se decidir. Terminado o prazo, o presidente da entidade, Major Kleber e o diretor, Rodrigues de Gouveia, foram à Rede Ferroviária e exigiram um documento do clube desistindo da disputa. O documento foi redigido, assinado e entregue ao Major Kleber. À Federação não restava alternativa senão proclamar o ASA campeão Estadual de l953.

Depois do depoimento de Rodrigues de Gouveia, o torcedor do ASA, José Pereira Neto, começou a investigar o caso. Na Federação não havia nem o documento do Ferroviário, nem o ato da proclamação. Desta forma, os dirigentes da entidade não poderiam reconhecer, oficialmente, o ASA como campeão. Pereira não desanimou, juntou-se ao cronista Lauthenay Perdigão e ao fotógrafo Walter Luiz, e continuou a pesquisa nos jornais da época. As noticias esportivas confirmavam as declarações de Rodrigues de Gouveia. Faltava a proclamação oficial que ninguém tinha.

O Museu dos Esportes também se envolveu com o caso, procurando fazer depoimentos com personagens que viveram os acontecimentos de 1953. Todos confirmavam o diretor da Federação, mas não havia uma prova concreta. Finalmente, no ano de 2001, tudo ficou esclarecido. Graças à insistência de José Pereira Neto, o ato oficial da proclamação do ASA, Campeão de 1953, foi encontrado num cantinho de página de jornal.

Na época, após cada campeonato, a Federação enviava para publicação nos jornais, os atos de proclamação dos clubes campeões em todas as categorias. O ato que colocou o ASA de Arapiraca na lista dos campeões do alagoano foi publicado na Gazeta de Alagoas no dia 07 de abril de 1954 e dizia o seguinte:

“ ASA CAMPEÃO”

Recebemos.
Ilmo. Sr. Cronista Desportivo da Gazeta de Alagoas

Para vosso conhecimento e devidos fins, transcrevo a seguir o Ato nº. 06 da presidência desta Entidade nos seguintes termos:

Ato nº 6

O presidente da Federação Alagoana de Desportos, usando da atribuição que lhe confere o estatuto em vigor e tendo em vista o relatório apresentado pelo Diretor Geral de Desportos, resolve proclamar, CAMPEÃO ALAGOANO DE FUTEBOL DE 1953, na classe de amadores a Associação Sportiva de Arapiraca.

Dê-se ciência ao interessado e publique-se.

Federação Alagoana de Desportos em 20 de março de 1954.

Assinado,
Major Kleber Rodrigues de Andrade
Vice-Presidente em Exercício

Valho-me do ensejo para apresentar a V. Sª., meus protestos de consideração e grande estima.

Unidos Venceremos
Cláudio da Rocha Lima
Secretario Geral “

É bom informar que no ato de proclamação diz “na classe de amador”, pois o futebol alagoano, na época, era amador, não havia ainda o profissionalismo.
 Não precisa dizer que depois de ser oficializado, os torcedores do ASA fizeram a maior festa que estava preparada e guardada há 48 anos.

O beijo

Armando sempre foi tímido. Criado num ambiente de interior, não poderia ser diferente. Qualquer olhar de uma garota, deixava-o vermelho como um pimentão.

Acontece que um dia, Armando começou a namorar Cristina. E o amor foi aumentando, só que Armando não tinha coragem de beijar Cristina.

Numa tarde, depois do cinema, Armando resolveu falar:

- Cristina, quero lhe pedir uma coisa.
- O que‚ Armando?
- Você promete que me dá?
- Primeiro quero saber o que é.
- Você não se zanga?
- Não, pode falar.
- Quero um beijo.

E Cristina ficou mais vermelha que o Armando.
Ele insistiu:

- Você me dá um beijo?
- Vou fazer uma proposta.
- Diga qual é.
- Você vai jogar domingo contra o ARSENAL, não vai?
- Vou sim. E daí?
- Eu lhe darei o beijo se você fizer um gol, do contrário, nada feito.

Armando quase perdeu a fala.

- Mas Cristina, eu sou goleiro. Não posso fazer gol.
- Isso é problema seu. Se não fizer o gol, não tem beijo.
- Mas Cristina, isso não pode ser.
- Não entendo de futebol e só quero ver o gol.

Armando ficou abatido, porém sabia que não podia abandonar a luta. Como poderia marcar um gol se sua posição era de goleiro? O jogo era importante, contudo, por um beijo de Cristina, o Armando arriscaria até a vida.

E os planos foram tratados na cabeça do Armando.

No dia do jogo, lá estava a menina toda faceira e risonha no meio de um grupo de amigas.

Somente depois de começar a partida‚ é que Cristina percebeu que seu namorado dificilmente faria um gol. E perguntava a uma colega:

- Maria, por que Armando não sai daquele lugar, fica parado feito um bobo enquanto os outros correm atrás da bola?

A outra conhecia um pouco mais de futebol e explicou:

- Ele é goleiro, sua bobinha. Tem que ficar lá.

Já no segundo tempo, o marcador era de zero a zero e o Armando não tirava o pensamento do beijo de Cristina.


Num lance em frente a sua meta, Armando se atira aos pés do atacante adversário, agarra-se à bola e simula uma contusão no braço. O jogo foi paralisado e o treinador obrigado a colocar Armando na ponta esquerda para fazer número.

Intimamente, Armando estava feliz.

Agora só fazer o gol - pensava ele.

Cristina se assustou com a contusão do namorado, mas logo depois viu o Armando em campo e ficou satisfeita. Sentia que agora ele poderia faze r o gol e, por isso, torcia loucamente por ele.

Faltavam três minutos para terminar o jogo e o zero a zero continuava.
Foi quando o time atacou em massa. Uma bola cruzada da direita ia passar na frente da meta do ARSENAL e se perder pela linha de fundo.

Armando sentiu que aquela era sua grande oportunidade. 

Correu, viu que alcançaria a bola, e viu na bola a boca de Cristina. Saltou agilmente para ela e como se fosse impelido por um jato, foi com bola e tudo para dentro d o gol para delírio da torcida e, particularmente, de Cristina.

Acontece que um pedaço do couro cabeludo do Armando ficara do lado de fora da trave, pois sua cabeça atingira de raspão o poste direito do ARSENAL. 
Armando desmaiou.

No dia seguinte, a casa de saúde estava cheia de gente que foi visitar o heroi do jogo. E o heroi de cabeça quebrada estava feliz. Cristina apareceu a sua frente, caminhou resoluta para ele e o beijou na boca, apesar dos olhares estupefactos dos visitantes.  

Dramas do futebol alagoano - Netinho

1359510249netinho crb 1955

Netinho foi um craque no CSA, CRB, Auto Esporte e Esporte Clube Alagoas.

A torcida se encantava com suas jogadas. Era um jogador elegante, clássico e dono de um vistoso futebol.

Não adianta nossa preocupação em encontrar razões para explicar as coisas ruins que surgem em nossas vidas. Não nos cabe alternativa senão apontar os acontecimentos.
Por razões extracampo, Netinho começou a cair de produção. Seu estupendo futebol foi murchando, sumindo. A torcida já não via mais suas grandes apresentações. A imprensa não lhe dava a mesma atenção. E aquele que foi ídolo, que teve seus dias de glória, começou a ser esquecido por todos.

Netinho desapareceu!

Começou a beber. Não parava em nenhum emprego. Dava pena ver Netinho, no Mercado Público, pedindo dinheiro para beber. Era um quadro triste, onde ele aparecia como uma figura deformada. Netinho estava perdido, tragado pelo lamaçal da bebida.
Alguns amigos procuravam ajudá-lo. Em princípio, ele tomava jeito. Parecia ter expulsado a bebida de sua vida. Parecia querer reencontrar a porta para uma saída que lhe colocasse novamente na sociedade sadia e equilibrada. Tudo isso, porém, durava pouco tempo. Logo ele voltava a ser superado pelo álcool.

Diz o poeta que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, e Netinho deve ter tido fortes razões para se deixar devorar pelo vício da bebida.
Jovem ainda, mas com o físico debilitado, Netinho encontrou a morte prematuramente.
Nunca mais tivemos a chance de assistir àquele futebol inteligente, cheio de talento e habilidade.

O acidente com o ônibus do CSA

1359215473paranhos zagueiro do csa Paranhos

Em 1970 quase acontecia uma tragédia com uma delegação do Centro Sportivo Alagoano que viajava para Caruaru. O ônibus virou e muita gente saiu machucada.

O Trapichão ainda não havia sido inaugurado. O goleiro Zé Galego estava em grande forma, mas seu contrato não tinha sido renovado com o Centro Sportivo Alagoano. Já se falava na sua convocação para a seleção alagoana que participaria da inauguração do novo estádio contra o Santos de Pelé. Zé Galego tinha condições de ser titular e, por isso, não se descuidava nos treinamentos e queria jogar sempre, mesmo sem contrato.

Naquela semana, o CSA tinha um compromisso com o Central de Caruarú pelo Nordestão. No sábado, o ônibus saiu do mutange com a delegação e destino ao interior pernambucano. Era um micro ônibus dirigido pelo torcedor azulino Bonifácio. Para aumentar a tragédia, quando Bonifácio passou pela Fabrica Alexandria, convidou outro torcedor do CSA para acompanhar a delegação. Era Zagalo, também motorista da Empresa que ia levar os jogadores azulinos para o jogo contra o Central.

Quando o ônibus passou por Messias, um carro pequeno tentou ultrapassar o veiculo da delegação alagoana e provocou o acidente. Bonifácio perdeu o controle do ônibus que caiu numa ribanceira. Quando Zé Galego sentiu o problema, já estava debaixo do ônibus. Muita gente ajudou aos feridos. O pior é que quando tentavam levantar o veiculo por um lado, machucava mais alguém que estava no outro lado.

Os feridos mais graves eram quatro. O zagueiro Paranhos, o primeiro a ser socorrido e levado para o Hospital com queimaduras nas pernas devido ao derramamento de óleo do motor. O ponteiro Caroço estava com problemas na bacia e, merecia cuidados especiais. O torcedor Zagalo que ia de carona, teve um dos braços amputado. Zagalo era motorista, não estava em serviço e terminou sendo a tragédia maior. Zé Galego viu seus sonhos de jogar na inauguração do Trapalhão sumir naquela noite negra. O goleiro teve duas fraturas no braço. Muita gente achou que ele não iria mais jogar futebol. Pensaram errado. A força de vontade em se recuperar e o amor que tinha pela profissão, fez com que Zé Galego se recuperasse e voltasse a ser o grande goleiro que sempre foi. Todos se recuperam. Mas, um ficou marcado para sempre. Zagalo, que teve seu braço amputado, teve profundas marcas da fatalidade.

O outro lado do futebol

1358905579lauthenay61 Lauthenay Perdigão

- Viu só o Mário?
- Um bolão! Ainda não é craque, mas tá pintando.
- Deixa prá lá. Pra jogar no meu time tem que ser cobra mesmo.
- Mas no time não pode ter dois centroavantes?
E esse criolo... não sei não.

A conversa do Vavá abriu os olhos dos outros.

Até então, encaravam o garoto Mário como mais um entre os tantos que faziam experiências num clube grande.

Mas, de vez em quando, surgia um craque. Carlos, titular do time, também começou assim.

Foi duro chegar ao time de cima. Porém chegou. Carlos não acreditava que poderia ficar por baixo, apesar de animar o novato Mário nos treinamentos. Depois, quando ele foi lançado numa emergência e abafara, a coisa mudou muito. Carlos ficou apreensivo. Continuou jogando, mas a torcida queria Mário.

Parecia até que, após aquele jogo, Carlos já não era o mesmo dentro do campo. Era um veterano e começou a perceber que o novato seria uma ameaça para seu lugar no time titular. Mário foi lançado novamente e abafou outra vez. A situação de Carlos ficava cada vez mais difícil e Mário tomava conta da camisa nove. Num treino, o titular se machucou e, com
isso, o novato começou a aparecer mais. Cada vez melhor.

Quando se recuperou, Carlos ficou no banco. A idade pesava, e nem a experiência podia superar a juventude, o ímpeto e a vontade de Mário. O novato era sinônimo de bola no barbante. A cada partida, seus gols surgiam nas mais difíceis formas. Mário ia comendo a bola e virando manchete. Carlos foi sumindo, passou a ser ninguém.

O garoto de Bebedouro virou cobra. Era o dono da galera. O craque do time.

O tempo foi passando. Mário marcando gols, conquistando vitórias e títulos para sua equipe. Seus contratos eram milionários e todos estavam felizes por ter um criolo como Mário na equipe.

Um dia, num lance casual durante a realização de um treino, sentiu uma fisgada na virilha. Uma distensão perigosa e difícil de ser tratada. Somente um longo repouso poderia devolver a Mário suas condições ideais de jogo. O departamento médico foi mobilizado para abreviar seu período de restabelecimento.

No começo, Mário ainda tentava jogar. Não queria se afastar do futebol, dos companheiros, do público. Dizia que estava bom. Começava o jogo e logo era substituído.

Mário começou a sentir medo. Apesar de amadurecido, ele tinha cara de que ia explodir num
choro a qualquer momento. Os olhos brilhantes continham pontinhas de lágrimas. Na sala de recuperação, ele começou a pensar em Carlos.

Ô futebol ingrato. Ele cria os ídolos com a rapidez de um raio, e da mesma forma ele o destroi. Seu substituto era um juvenil. Todas as vezes que ele entrou em campo também assinou seus gols, agradou a sua torcida.

Mário não tirava Carlos do pensamento.

Quando sentiu a fisgada pela última vez e foi substituído, sentiu também um nó na garganta.

Uma coisa assim como medo, vontade de chorar. Quando descia com dificuldade as escadas do túnel, ouvia gritarem as mesmas frases que, anos atrás, dirigiam para ele. Só que agora, eram para seu substituto.

- Ai garoto! Vai firme que a sorte é sua!
- Pra correr garoto! Não tenha medo! Se tiver alguma dúvida, conte com a gente!
- Parabéns garotão! Boa sorte!

As palavras dançavam na sua cabeça. Mário continuava pensando em Carlos. A história parecia se repetir. Na solidão do vestiário, com uma bolsa de gelo na virilha, Mário ligou o rádio para ouvir o resto do jogo. O garoto dos juvenis abafava. Ele ouviu 1x0, 2x0, 3x0. Três gols do seu substituto.

Ao término do jogo, isolado num canto do vestiário, apenas ficou observando a movimentação em torno do novo ídolo do time. Todos queriam abraçar o novo artilheiro. Os locutores desejavam ouvi-lo sobre o s gols que havia marcado. O menino tinha estampado no rosto uma euforia contagiante.

Ainda com lágrimas nos olhos, sentindo que estava esquecido por todos, Mário conseguiu fazer um aceno ao jovem goleador. Esticou o polegar para cima e com a mão fechada, desejou-lhe... BOA SORTE! 

Como nasceu o futebol em Alagoas?

Um grupo de rapazes estudantes de Direito e Medicina nos princípios de 1909 apresentaram em Maceió uma novidade: o futebol. O novo esporte adquiriu na vida brasileira imensa importância. É preciso notar que, antes de nossa capital, Penedo travou conhecimentos com o futebol. A precedência foi, porém, de apenas três meses e dias. O primeiro jogo na cidade sanfranciscana teve lugar a 27 de dezembro de 1908, ultimo domingo naquele ano. Nele tomavam parte dois times organizados com rapazes da associação fundada para aquele fim e que ainda existe gloriosamente, o Esporte Clube Penedense. Os precursores do futebol em Alagoas foram os seguintes – No time vermelho e branco jogaram Jul io Berna Dino, Fernando Mendonça, Gaspar Mello, Osvaldo Mero, Afonso Aquino, Vivaldo Matos Alcino Monteiro, Eduardo Pereira (capitão do time), Manoel Brandão Filho, Arnóbio Sales e José Monteiro. No time verde e branco tivemos João Cravo, Argemiro Cavalcante, Agripino Barbosa, Samuel Maia, Álvaro Peixoto, Elysio Nogueira e Horácio Pereira. O juiz foi Antonio da Silva Costa e seus auxiliares José Costa e Artur Otacílio. O segundo jogo aconteceu no dia 31 de janeiro de 1909 e uma verdadeira multidão afluiu à Praça do Senhor dos Pobres onde se realizou o evento.

Em Maceió, o futebol foi um bebê aristocrático. Deve-se ao esforço de Manoel Machado, então no 5º no de Academia de Medicina da Bahia. Ao chegar de férias nos fins de 1908, Manoel Machado trazia a idéia de fundar em nossa capital um clube destinado à prática desse esporte. Animou outros acadêmicos, como ele em férias na cidade, e no dia 31 de dezembro, instalava-se na sua residência, na Praça dos Martírios, o Alagoano Futebol Clube, do qual foi ele aclamado presidente. Como não havia campo para treinar e jogar, o Comendador Ângelo Guimarães emprestou um terreno baldio cercado, na esquina na Rua Ângelo Neto com a Praça Gonçalves Ledo, onde muitos anos depois foram construídas as casas ali existentes.

Em seguida cuidou-se de preparar o espetáculo para o público. Gilberto de Andrade foi um auxiliar eficientíssimo de Manoel Machado. Tinha a seu inteiro dispor um jornal - o Gutemberg – propriedade do pai Dr. Eusébio de Andrade, que em repetidas publicações, algumas quase em tom de apelo, conseguiu que a rapaziada comparecesse a alguns treinos. A maioria nunca sequer tinha visto um jogo de futebol, apenas Manoel Machado, Mario Rego, Amadeu Dourado e mais dois tinham um vago conhecimento das regras do novo esporte.

Depois de vários adiamentos, chegou à tarde memorável da apresentação ao público. No dia 31 de março de 1909, uma quarta feira que não era feriado jogaram dois times. O Floriano que tinha os seguintes jogadores: Orlando Araújo, Manoel Machado, Sebastião Sampaio, Gilberto Andrade, Luiz Duarte, Amarilio Rego. Ismael Acyoly (capitão do time), Álvaro Barros, Barreto Cardoso, Gastão Silveira e Helvécio Auto. E o Deodoro contava com J. Leão do Rego, Amadeu Dourado, Antonio Machado, Américo Passos Filho, Jacintinho Medeiros Filho, Valente de Lima, Mario Rego (capitão do time), Oscar Aguiar, Euclides Aguiar Filho, Carlos Menezes e Silvio Etílico. Cláudio Dobemos Filho foi o arbitro. Guedes Lins e Eraldo Passos foram os juizes de linha.

O jogo pelo lado técnico foi, como se pode avaliar, cheio de faltas e desconhecimento das regras. Entretanto, jamais houve um futebol tão elegante, tão fino como aquele. Não apareceu em campo essa coisa bruta e disforme que é a chuteira. A bola era tratada a pés calçados nas botinas comuns de passeio e seda ou setim eram as faixas que distinguiam os dois times e as meias eram as usuais suspensas por elásticos. Orlando Araújo era o goleiro do Floriano e usava um óculos preso ao pescoço por uma fita larga de seda preta. Seu time venceu por 2x0. O Jornal Gutemberg do dia 1º de abril dava a notícia do jogo acentuando como nota destacada a presença de cerca de cinqüenta senhoritas da elite maceioense. A festa foi abri lhantada pela banda de música do Batalhão Policial, e foi honrada com a presença do Governador do Estado Dr. Euclides Malta. Depois do primeiro jogo, mais dois foram realizados com o mesmo brilho, embora o comparecimento das senhoritas foi menor porque as línguas maldosas espalharam que as moças iam ao campo do Jacutinga apenas para verem as pernas dos rapazes.

Na reabertura das aulas, os acadêmicos retornaram para Recife, Salvador e São Paulo e o futebol em Maceió parou. Somente nas férias seguintes é que a bola voltou a rolar e foi para valer.       

Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com