Antes de escolher o que queria ser, o estudante Manoel Neto precisou descobrir o que não queria. Aos 21 anos, o jovem de Campestre, no interior de Alagoas, deixou para trás a ideia de seguir carreira na tecnologia e encontrou no cinema um projeto de futuro. Agora, tenta transformar essa escolha em profissão por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

O interesse pelo audiovisual surgiu ainda na infância, influenciado pelo tio, diretor de uma rádio comunitária. Entre gravações e edições de vídeos, Neto descobriu uma afinidade que se confirmou quando teve contato com um curso particular de Audiovisual em Maceió. “Eu tive certeza na hora de que era isso que eu queria fazer”, conta.

Em 2025, ele prestou o Enem pela primeira vez, na tentativa de conquistar uma vaga no curso de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, mas não conseguiu a aprovação.

Além da preparação para a prova, a escolha envolvia outro desafio: estudar fora de Alagoas significaria deixar a rede de apoio e construir uma vida em outra cidade.

“Se eu conseguisse passar e realmente fosse para Recife, ia ficar longe de todo mundo que conheço. Ia ter que montar uma estrutura do zero”, relata.

Neste ano, Manoel ganhou uma nova perspectiva com o anúncio da criação do curso de Tecnologia em Produção Audiovisual da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em Penedo, com previsão de início em 2027.

A novidade despertou entusiasmo, mas não eliminou as dificuldades. A distância entre Campestre e o município, no sul do estado, ainda representa um obstáculo.

“Eu fiquei muito feliz, bem animado. Mas, sinceramente, não faz tanta diferença para mim. Eu ter que ir para Recife ou para Penedo, mesmo sendo no mesmo estado, porque teria que montar a mesma estrutura do zero”, afirma.

A experiência do jovem mostra que a escolha profissional não depende apenas de vocação ou desempenho em uma prova. A oferta de cursos, a distância dos centros universitários e as condições financeiras e familiares também pesam na decisão.

 

Estudante Manoel Neto, de18 anos – Foto: Arquivo Pessoal 

 

Para Raquel Sivini, de 20 anos, que há três anos se prepara para conquistar uma vaga em Medicina na Ufal, o desafio está em persistir. Diferentemente de Manoel, que encontrou sua vocação ao experimentar diferentes áreas, ela conta que o interesse pela profissão foi construído desde a infância.

Esse interesse se fortaleceu durante o Ensino Médio, quando passou a se identificar com disciplinas relacionadas ao funcionamento do corpo humano.

A preparação para o exame, no entanto, exige mais do que dedicação aos livros. Ao longo dos últimos anos, Sivini precisou reconhecer as próprias dificuldades, reorganizar a rotina e desenvolver estratégias para melhorar o desempenho.

Neste ano, passou a estabelecer metas diárias de estudo, com atenção especial às disciplinas em que teve menor pontuação no Enem anterior.

Para equilibrar a rotina, também incluiu a natação entre as atividades da semana. Um dos maiores desafios, segundo ela, é manter a constância mesmo quando os resultados parecem não acompanhar o esforço.

“É uma escolha diária, respeitar o próprio ritmo, lidar com a quantidade de conteúdo e se manter firme quando parece que não evoluímos, ou às vezes até mesmo quando regredimos”, relata.

A espera pela aprovação também traz comparações e cobranças. A estudante conta que sente frustração ao ver amigos que já ingressaram na universidade e avançaram na graduação enquanto ela continua se preparando.

Em alguns momentos, chegou a questionar a própria capacidade e considerar a possibilidade de escolher outro curso, menos concorrido.

Mesmo assim, quando chega a hora de disputar uma vaga pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), a vontade de cursar Medicina permanece. “Quando chega o momento de colocar minha nota no sistema do Sisu, não sinto a menor vontade de mudar minha meta”, afirma.

Para ela, a aprovação representaria a concretização de um objetivo perseguido há anos e o início de uma nova etapa de vida.

 

Estudante Raquel Sivini, de 20 anos – Foto: Arquivo pessoal

 

Entre os sonhos e as oportunidades

As trajetórias de Manoel e Raquel partem de objetivos diferentes, mas se encontram em uma mesma expectativa: a de que o acesso à universidade abra novas possibilidades de vida.

A dimensão dessa busca também aparece nos números do Enem. Alagoas contabilizou 92.957 inscritos na edição de 2026, dos quais 68.265 tiveram direito à gratuidade da taxa, o equivalente a 73,44% do total, conforme dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Entre os estudantes que estão concluindo o Ensino Médio na rede estadual, 29.715 confirmaram participação no exame, representando 95,5% do público apto a se inscrever, segundo a Secretaria de Estado da Educação (Seduc).

Para Deividy Carlos, professor de Sociologia e Filosofia em colégios particulares e cursinhos preparatórios para vestibular, as escolhas profissionais dos estudantes também são influenciadas por expectativas familiares e pressões sociais.

Segundo o professor, ainda existe uma valorização concentrada em carreiras tradicionalmente associadas ao prestígio e à estabilidade financeira, como Medicina, Engenharia e Direito.

Carlos observa que muitos jovens demonstram interesse por áreas artísticas e culturais, como música, cinema, teatro e desenho, mas acabam deixando essas possibilidades de lado diante da ideia de sucesso construída socialmente.

“Às vezes vem mais da família, vem mais dos pais, vem mais da pressão social da ideia de sucesso, do que necessariamente deles”, avalia.

A oferta de cursos e as oportunidades de formação em cada região também interferem nesse processo. Na avaliação de Deividy, embora Alagoas receba estudantes de diferentes partes do país interessados nas graduações oferecidas pela Ufal, a estrutura educacional ainda não consegue atender plenamente às demandas dos próprios jovens alagoanos.

Essa realidade ajuda a compreender a situação de Manoel. A criação de um curso de Produção Audiovisual no estado amplia as possibilidades de formação, mas os custos de moradia e a necessidade de construir uma nova rede de apoio continuam no caminho de quem precisa mudar de cidade para estudar.

A preparação para conquistar uma vaga também exige estratégias e persistência, especialmente em graduações muito concorridas. Deividy destaca que o desempenho depende tanto das atividades em sala de aula quanto da rotina de estudos fora da escola.

Para ele, a resolução de questões, a realização de simulados e a revisão de provas anteriores são fundamentais para quem busca uma boa classificação.

O professor pondera, porém, que dedicação e desempenho não podem ser analisados de forma isolada. As condições socioeconômicas e a estrutura pessoal de cada estudante interferem diretamente nas possibilidades de preparação e permanência no ensino superior.

Além da formação profissional, o ingresso na universidade pode representar novas oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Deividy considera que a graduação ainda funciona como um diferencial na disputa por vagas, embora reconheça que o diploma, sozinho, não garante estabilidade financeira ou sucesso profissional.

Neste domingo (8), Manoel e Raquel participam do primeiro dia de provas do Enem 2026. Para os dois, o exame representa mais uma etapa de trajetórias marcadas por escolhas, expectativas e desafios distintos.

Enquanto Manoel procura transformar o interesse pelo audiovisual em profissão, Raquel segue firme na tentativa de conquistar a vaga em Medicina. Para ela, a aprovação seria “uma conquista que parecia nunca virar realidade, o início da minha vida adulta e o primeiro passo dessa jornada”.

 

Professor Deividy Carlos – Foto: Arquivo Pessoal 

 

O que saber para os dias de prova em AL 

O Enem 2026 será aplicado nos domingos 8 e 15 de novembro. No primeiro dia, os participantes responderão às questões de Linguagens e Ciências Humanas, além de produzir a redação. No segundo, serão aplicadas as provas de Ciências da Natureza e Matemática. 

Nos dois dias, os portões abrem às 12h e fecham às 13h, com início das provas às 13h30, pelo horário de Brasília, o mesmo de Alagoas. Na aplicação regular, o encerramento será às 19h no primeiro domingo e às 18h30 no segundo. Não será permitida a entrada após o fechamento dos portões. 

Antes de sair de casa, o candidato deve conferir o endereço no Cartão de Confirmação de Inscrição, disponível na Página do Participante, e planejar o deslocamento. O Inep recomenda levar o cartão impresso, embora ele não substitua o documento de identificação. 

É obrigatório apresentar documento de identificação válido com foto e levar caneta esferográfica de tinta preta, fabricada em material transparente. Documentos digitais aceitos devem ser apresentados nos aplicativos oficiais ou no Gov.br. 

Ao entrar na sala, celulares e outros aparelhos eletrônicos devem ser desligados e guardados no envelope porta-objetos fornecido pela equipe, que deve permanecer lacrado. Se algum aparelho emitir som, mesmo dentro do envelope, o participante será eliminado.

A saída definitiva da sala só é permitida após duas horas do início da prova. Para levar o caderno de questões, é necessário permanecer até os últimos 30 minutos da aplicação. 

*Estagiária sob supervisão da editoria 

Foto de capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil