O litoral de Alagoas voltou a ser ponto estratégico de rota migratória, cópula e berçário reprodutivo para as baleias-jubarte. Com o salto populacional da espécie no Brasil, que já ultrapassa a marca de 35 mil indivíduos, mais de 20 vezes o registrado no início dos anos 1990, a presença cada vez mais frequente de fêmeas e filhotes nas águas quentes e rasas do estado corrobora um marco para a biodiversidade marinha local.
"Costumo dizer que todos os filhotes recém-nascidos que registramos aqui são alagoanos", destaca o professor e biólogo Cláudio Sampaio, do Laboratório de Ictiologia e Conservação da Universidade Federal de Alagoas (LIC/Ufal).
Enquanto o cenário comemora o sucesso da proibição da caça e do trabalho contínuo de preservação, a alta na circulação dos cetáceos também acende o sinal vermelho para o aumento de encalhes e para os riscos do turismo náutico desregulado na costa alagoana.
Dinâmica no mar de Alagoas e monitoramento científico
As características do litoral alagoano — águas quentes, rasas e com baixa incidência de predadores naturais, como orcas e grandes tubarões — oferecem o refúgio ideal para que as fêmeas gestantes concluam a gestação e amamentem seus filhotes entre os meses de julho e outubro.
"As baleias-jubarte buscam águas quentes, rasas e com poucos predadores naturais. O litoral alagoano possui essas características, além de pouco trânsito de grandes navios, que podem causar estresse às baleias-jubarte, justamente nesse período crítico de amamentação", detalha o professor e biólogo Cláudio Sampaio.
Para mapear essa presença, o LIC/Ufal conduz cruzeiros científicos regulares no Litoral Sul, entre o Pontal do Peba e a foz do Rio São Francisco. Utilizando metodologias de fotoidentificação de caudas e gravação de vocalizações de machos em grupos competitivos, os pesquisadores registram a forte rotina reprodutiva na região.
"Os resultados ainda são preliminares, mas segue o padrão das outras regiões, com grupos competitivos de machos, disputando fêmeas, que já estão com seus filhotes recém-nascidos. Além das baleias, registramos tartarugas, aves e golfinhos", pontua o pesquisador, atestando a biodiversidade mapeada nas expedições.
Alerta para encalhes e rigor em resgates
Se por um lado o crescimento populacional amplia os avistamentos em praias como o Francês e o Pontal do Peba, por outro ele traz impactos diretos no volume de ocorrências de animais debilitados.
Dados do Projeto Baleia Jubarte e da Rede de Encalhes e Informação de Mamíferos Aquáticos do Brasil (REMAB) apontam um total de 59 encalhes registrados no país ao longo do ano, com picos expressivos nos meses de junho (14) e agosto (16).
O biólogo Bruno Stefanis, presidente do Instituto Biota de Conservação, aponta que Alagoas historicamente figura entre os estados com números expressivos de ocorrências.
"O número de encalhes vem aumentando a cada ano, e Alagoas já chegou a registrar o terceiro estado com o maior número de encalhes, ficando atrás apenas da Bahia e do Espírito Santo", destaca Stefanis, pontuando que a maioria dos casos no estado envolve filhotes recém-nascidos que se desgarram das mães e acabam indo a óbito por inanição por não terem como se alimentar.
Diante disso, o especialista reforça que tentar devolver animais vivos ao mar ou manusear carcaças por conta própria é estritamente proibido e perigoso:
"Às vezes a intenção é boa, mas sem habilidade e sem autorização, a pessoa pode cometer erros e causar a morte do animal, ou até mesmo não usar equipamentos adequados e contrair doenças, como zoonoses", adverte o presidente do Biota, lembrando que a força física e o peso de um cetáceo também podem provocar acidentes graves em curiosos.
Reforçando o controle institucional sobre o tema, a atuação ganhou diretrizes legais mais restritas com a publicação da Instrução Normativa ICMBio nº 8, de 26 de janeiro de 2026, que regulamenta rigidamente o credenciamento de instituições e a capacitação oficial de resgatistas nas categorias de ataque e apoio, vedando a intervenção de leigos em ocorrências dessa natureza.
Turismo de observação e regras de aproximação
O retorno das jubartes impulsiona alternativas econômicas para comunidades costeiras e o ecoturismo. Contudo, a atividade exige capacitação profissional de guias e condutores de barcos, além de fiscalização implacável contra o crime de molestamento ambiental.
A legislação federal e o Manual de Boas Práticas do ICMBio estabelecem normas rígidas para a interação embarcada:
- Distância mínima: Manter pelo menos 100 metros de distância de baleias verdadeiras com o motor em neutro ou à deriva.
- Velocidade: Não ultrapassar 5 nós (cerca de 10 km/h) a menos de 300 metros dos animais.
- Tempo de permanência: O acompanhamento não deve exceder 30 minutos (ou 15 minutos em casos de fêmeas com filhotes).
O que fazer ao avistar um animal encalhado?
Ao localizar um cetáceo encalhado ou em situação de risco na costa, a orientação dos especialistas é clara:
- Evite qualquer contato físico com o animal.
- Isole a área e mantenha distância segura.
- Ligue imediatamente para os órgãos competentes e equipes de resgate credenciadas (como o Instituto Biota de Conservação, Ufal, IMA-AL, ICMBio ou Ibama) e aguarde o suporte técnico oficial.

