
Da carta de amor à curtida, da infância nas ruas à era das telas.
Renata Rodrigues | Escritora, poeta e colunista
Fomos a geração que escreveu cartas de amor e hoje espera pelos dois risquinhos azuis de confirmação de leitura do whatsap. Que gravava músicas do rádio em fitas cassete, pesquisava em livros em bibliotecas públicas e hoje conversa com a inteligência artificial. Nascemos no século passado, atravessamos a virada do milênio e aprendemos a viver em dois mundos. Somos parte da Geração X e da Geração Y, os Millennials. E talvez tenhamos vivido uma das infâncias mais felizes de todos os tempos.
Nossa infância tinha bola na rua, amarelinha, esconde-esconde e a mãe chamando à porta quando começava a anoitecer. Os amigos não eram seguidores. Batiam à porta e perguntavam: “Fulano pode brincar?”. Quando chovia, havia jogos de tabuleiro, mas bom mesmo era tomar banho de chuva, correr pelas poças d’água e voltar para casa encharcado.
Não precisávamos de telas para preencher o tempo. Inventávamos brincadeiras, colecionávamos joelhos ralados e construíamos amizades olhando nos olhos, e o tédio tantas vezes era bem-vindo e bem elaborado emocionalmente. Hoje, entre prédios e concreto, insegurança nas ruas e rotinas cada vez mais fechadas, muitas crianças encontram nas telas o espaço de diversão que antes ocupávamos nas calçadas, nas conversas e nos abraços
Os amores antigos nasciam enquanto escrevíamos cartas, dedicávamos músicas, esperávamos o telefone tocar e criávamos coragem para conversar pessoalmente ou chamar para uma dança no baile. Haviam festas, encontros, abraços, olhares e o frio na barriga de estar diante de alguém de quem gostávamos. A geração mais nova, talvez jamais consiga entender a dimensão desse conjunto de emoções que vivemos.
Hoje, uma curtida desperta expectativas e traz mensagens subliminares que devem ser decifradas. Uma mensagem sem resposta provoca ansiedade e, às vezes, parece mais fácil conversar por uma tela do que sustentar uma conversa pessoalmente. O sociólogo Zygmunt Bauman, em Amor líquido, refletiu sobre a fragilidade dos vínculos contemporâneos. Não significa que todos os amores antigos fossem sólidos, mas é curioso perceber como podemos estar tão conectados virtualmente e tão distantes na vida real.
Éramos felizes? Muito! Porém, existe uma pergunta que a nostalgia costuma esconder: essa infância maravilhosa era a realidade de todas as crianças brasileiras
Enquanto algumas famílias tinham televisão, geladeira, brinquedos e comida na mesa, outras enfrentavam a fome. Nos anos 1980 e 1990, especialmente em regiões pobres do interior e do sertão nordestino, muitas crianças cresciam sem alimentação adequada, atendimento médico ou oportunidades de estudo. Para elas, a preocupação não era perder o desenho da televisão, mas saber se haveria o que comer.
Em determinados municípios, a distribuição de cestas básicas ainda alimentava práticas clientelistas, herdeiras do coronelismo. A ajuda podia chegar como favor de um político, muitas vezes acompanhada da expectativa de apoio eleitoral. A pobreza não era apenas uma condição econômica: também podia ser instrumento de dependência política.
Foi nesse Brasil desigual que políticas públicas começaram a ampliar direitos. O SUS, previsto na Constituição de 1988 e regulamentado em 1990, expandiu o acesso à saúde. Vieram os agentes comunitários, as equipes de Saúde da Família, as visitas domiciliares e, em 2003, a instituição nacional do SAMU 192. A Farmácia Popular, criada em 2004, ampliou o acesso a medicamentos.
O Bolsa Família, também criado em 2003 pela integração de programas anteriores, passou a garantir transferência direta de renda a famílias pobres. E políticas como as cotas nas universidades federais, estabelecidas por lei em 2012, ampliaram oportunidades para estudantes de escolas públicas, incluindo filhos de trabalhadores domésticos e de famílias que historicamente encontravam enormes barreiras para chegar ao ensino superior.
Isso não significa que esses programas sejam perfeitos. O Bolsa Família precisa de fiscalização para combater fraudes e garantir que os recursos cheguem a quem realmente necessita. Também precisamos ampliar a qualificação profissional dos adultos, com parcerias entre assistência social, SINE, SENAI e SENAC, criando oportunidades concretas de trabalho e autonomia. Famílias afetadas pelo alcoolismo ou pela dependência de outras substâncias precisam de tratamento e acompanhamento, especialmente quando há crianças vulneráveis.
Mas transformar casos particulares em argumento contra milhões de beneficiários é tão equivocado quanto ignorar as falhas de fiscalização. O desafio não é simplesmente retirar uma família do Bolsa Família, mas criar condições para que ela não precise mais dele.
E aqui está a grande contradição da nossa nostalgia: enquanto sentimos saudade de uma infância sem telas, precisamos reconhecer que muitas crianças daquela época não tinham sequer o direito de viver a infância com tranquilidade.
Nossa geração testemunhou a carta virar mensagem, a enciclopédia virar internet e a internet chegar à inteligência artificial. Mas também acompanhou a ampliação de políticas de saúde, educação e proteção social que ajudaram a transformar a realidade de muitas famílias brasileiras. Fomos a geração mais feliz de todos os tempos? Talvez. Mas depende de qual infância estamos falando. Da criança que brincava despreocupada na rua ou daquela que precisava enfrentar a fome antes mesmo de aprender a sonhar?
Tivemos o privilégio de conhecer um mundo sem telas, de construir amizades nas calçadas e descobrir o amor olhando nos olhos. Mas seria injusto transformar nossas lembranças em uma verdade universal.
Porque a infância mais feliz não é aquela que uma geração sobreviveu. É aquela que toda criançatem o direito de viver com acesso a lazer, direitos básicos, como alimentação adequada, segurança e educação. Pois de que adianta sentir saudade de um tempo em que brincávamos livremente nas ruas, se ainda não conseguimos construir um país onde nenhuma criança precise brincar de esquecer a fome ou o medo ?
