Flávio Bolsonaro é contra o fim da jornada de trabalho na escala seis por um. O argumento do candidato a presidente, compartilhado pelo Mercado e gigantes do empresariado nacional, poderia ser visto como uma piada sem graça, não fosse de um cinismo atroz. Para o sujeito que vive da política desde criancinha, e que nunca pegou no batente, o modelo ideal é a “negociação direta” entre patrões e empregados.

Flávio tem a desfaçatez de “ensinar” como o povão deve fazer para ser feliz no trabalho. Segundo ele, melhor do que a jornada cinco por dois é “trabalhar quantos dias você quiser”. Como seria isso? Negocia com o dono da empresa. Quer trabalhar dois dias? Pode. Prefere quatro dias? Pode também. Você é livre para escolher.

Explica mais, Flávio: “Quem quer trabalhar mais faz isso. Quem prefere uma jornada menor tem a liberdade para decidir”. Fica todo mundo feliz, sem essa besteira de acabar com o rojão da seis por um. Os megaempresários, humanistas e compreensivos, não veem a hora de negociar com seus empregados – tratados como “parceiros”.

Rapaz, que maravilha! Como foi que ninguém tinha pensado nisso até agora? Gerações de pensadores do capitalismo gastaram quilômetros de textos e livros, e não chegaram nem perto da solução flaviana. Negociação direta com os donos do dinheiro. De igual pra igual. Agora sim: demorou uma eternidade, mas a classe operária vai ao paraíso.  

A título de exemplo, deixe-me ver como seria esse diálogo com o patronato. Os batalhadores da Havan chegam diante do Véio e informam que, a partir de agora, querem jornada de quatro por três, ou cinco por dois, ou quem sabe sete por sete. Luciano Hang, o patrão, reage com um “pois, não” a seus colaboradores. Rua pra todo mundo!

Aqui em Alagoas, já estou vendo o cordato Rafael Tenório negociando “de igual pra igual” com seu batalhão de prestadores de serviço. Bolsonarista sensível às demandas do povaréu, dará tratamento vip aos que forem a seu gabinete com as ideias de seu candidato a presidente. Cito o empresário como modelo. Nada pessoal.

E os modernos usineiros? Com a herança dos engenhos e da casa-grande, vão tratar o exército de cortadores de cana e demais funções com a civilidade da foice. O chamado boia-fria quer decidir a própria jornada? Ok. Cinco dias na roça, dois dias para alta da enfermaria (não sei se fui muito sutil). Claro, o olho da rua é sempre uma opção.

É hora de modernizar a ultrapassada relação trabalhista. Tempos modernos. Negociação modelo Flávio é isto: trabalhador entra com o pescoço, patrão vai com a forca.