O animador Luciano Huck vive dias de tensão com a Globo. Dois episódios mal explicados até agora azedaram a parceria entre a empresa e o “artista”. O primeiro envolve a até então desconhecida amizade de Huck com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Mensagens no celular do homem do banco Master revelam negociações milionárias e troca de favores. Os dois se falaram até o dia da prisão de Vorcaro, em 2025.

Na cúpula da Globo, os diálogos entre os amigos causaram desconforto – até irritação, segundo alguns relatos na imprensa. A cúpula, vale lembrar, é a família Marinho. A direção da emissora mandou abrir uma auditoria para esclarecer todas as camadas, por assim dizer, dessa relação até então longe da luz do sol. O resultado sairá em 30 dias.

O programa Domingão com Huck tinha patrocínio do Will Bank, braço do Master. Até aí, ao que parece, tudo dentro da normalidade numa relação comercial via publicidade. Mas Luciano também era useiro de caronas e empréstimos de jatinhos de Vorcaro. A dupla também compartilhava outros negócios, além de momentos de lazer.

Mas o que pegou o apresentador na contramão foi a suspeita de ser lobista de Vorcaro junto aos Marinho. “Te mando notícias ao longo do dia sobre a Globo”, informa ele ao parceiro. Em outra mensagem, revela: “Hoje testei mais uma vez seu nome em alto escalão. Quando der me dá um toque e falamos”. Aí as coisas se complicam para Huck.

Ele estaria usando um suposto prestígio com os donos da Globo para emplacar os interesses do então banqueiro. Se a auditoria levantar pistas nessa direção, Luciano pode dançar – e não será no quadro Dança dos Famosos. Esse tipo de ação é imperdoável para os donos do império Globo. Aliás, não é uma postura aceitável em nenhum lugar.

Mal comparando, lembra de longe o caso do jornalista Ricardo Boechat, demitido do Grupo Globo em junho de 2001. Ele apareceu num grampo telefônico tratando de uma informação sobre privatização de telefonia. Lá pelas tantas, dá dicas a seu interlocutor de como se portar diante de João Roberto Marinho. A demissão sumária foi inevitável.

Outro episódio que desgastou Huck com seus patrões mexe com política e eleição. Na maior cara de pau, ele recomendou a sua audiência uma plataforma que “ajudaria” a encontrar bons candidatos pelo Brasil afora. Segundo esse patriota, o site é “apartidário”, uma ferramenta criada para “aproximar” a população de bons políticos. É brincadeira!

Na prática, ao responder a um questionário da plataforma, o desavisado eleitor recebia sugestões de candidaturas para seu perfil – todas, sem exceção, de direita. E, vejam bem, Luciano promoveu essa marmota durante seu programa, visto por milhões de brasileiros. Se isso não é crime eleitoral, nada mais pode ser classificado como tal.

A delinquência levou o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul a abrir investigação contra a Globo. Ao que tudo indica, parece ironia, a emissora nesse caso é inocente. Huck agiu por conta própria, sem o conhecimento da empresa.

O sujeito que vive se insinuando presidenciável corre perigo. Por aí.