Daniel Vorcaro quer dar entrevista a Roberto Cabrini, da Record TV. O jornalista confirmou à Folha de S. Paulo que negocia o encontro, e espera um desfecho favorável para os próximos dias. Em paralelo, a turma do ex-banqueiro preso procurou a Globo para negociar os termos de uma conversa exclusiva. A investida simultânea – um exotismo envolvendo duas concorrentes na imprensa – combina com o personagem.
É como se ele estivesse fazendo um leilão. A decisão sobre qual emissora terá o privilégio da exclusividade depende das negociações em andamento. Para ser entrevistado na cadeia, o ex-dono do banco Master precisa ter autorização da Justiça. A primeira condição para isso, que é a vontade do detento, está posta. Mas não basta.
Mesmo que veículo e fonte cheguem a um acordo, a Justiça avalia outros fatores sobre os quais os interessados nada podem fazer. Vorcaro também apresenta suas condições para decidir entre as duas redes de TV. Ele quer falar em horário nobre durante o maior tempo possível. O cara é folgado mesmo. Acha que tem bala na agulha.
Nas confabulações entre as partes, haveria também um impasse sobre determinadas questões – ou perguntas que seriam ou não feitas ao entrevistado. Nem preciso escrever que essa parte é a mais absurda. E é claro que Globo e Record jamais vão admitir que isso esteja sendo cogitado. Esse tipo de acerto é a negação do jornalismo.
Na verdade, entrevista combinada desmoraliza o jornalista que se submete à prática. Ao mesmo tempo, zera qualquer resquício de credibilidade sobre o conteúdo levado a público. A simples desconfiança de que isso terá sido levado a cabo também significa nota zero ao crédito do veículo. Sob qualquer critério, prevalece o lamaçal.
Entrevistar Vorcaro poderia mesmo ser uma tacada e tanto para o Jornal Nacional ou o Domingo Espetacular. Esse é o personagem mais escalafobético surgido nos últimos tempos na vida pública brasileira. Afinal, ele seduziu – comprando a peso de ouro – figurões dos três poderes, do mundo empresarial, do esporte e das artes.
Esse aí, sim, passou o rodo geral. Querer entrevistá-lo é natural. Agora, o que ele espera ganhar com isso? Precedentes atestam que presos afamados se deram mal após entrevistas de grande audiência. Podem pesquisar. É quase uma regra.
E finalmente um detalhe explosivo: o harmonizado galã do Master quer falar logo agora, na reta final do segundo turno da eleição presidencial! É bomba na certa. Era só o que faltava para fechar a guerra eleitoral. Os efeitos seriam imprevisíveis.
