Durante o último domingo, para ter uma visão geral da apuração das urnas, fiquei zapeando por canais de TV e portais de notícia, entre uma tela e outra. Na disputa pela audiência, as grandes redes de televisão venderam o peixe de uma “cobertura exclusiva”, com “analistas experientes” e repórteres “espalhados por todo o Brasil”. Na prática, tudo semelhante, com cenários luminosos e uma pororoca de números, gráficos e mapas.
Quando as urnas foram fechadas e começou a contagem dos votos, o ritmo geral ganhou velocidade, com informações às vezes irrelevantes sendo tratadas de modo exagerado. Todos queriam apresentar algo “inusitado”, um “dado que chama atenção”, uma “possível reviravolta”. Em algumas situações, era apenas fumaça.
É claro que não é simples o trabalho de informar, ao vivo e em tempo real, o que está acontecendo no país inteiro. Qualquer detalhe pode virar um grave problema. Diante de algo inesperado, não é incomum que apresentadores, mesmo jornalistas acostumados a tudo isso, acabem caindo em algum tipo de armadilha. E foi o que aconteceu.
O âncora cria forte expectativa: “Vejam aqui o mapa de como fica a eleição nessas regiões”. Cadê? Segundos de silêncio à espera do tal mapa que nunca aparece, para desespero no estúdio. Um repórter é convocado a falar de algum ponto da cidade, mas aparece outro jornalista sem saber o que dizer. Os pedidos de desculpas se sucedem.
Mas ressalto outro aspecto, que é o anúncio dos eleitos. Na TV, todos esperam o sistema do TSE cravar o desfecho. Mas havia uma Folha de S. Paulo no meio do caminho. O site do jornal amassou a concorrência, incluindo televisões e internet. Com o auxílio do Datafolha, o veículo saiu na frente na confirmação dos resultados.
Foi assim na eleição presidencial e na disputa pelos governos estaduais. Enquanto Globo News, a CNN ou a Band falavam em “disputa apertada” ou “ainda não é possível afirmar se teremos segundo turno ou não”, a Folha manchetava o resultado das urnas. E acertou em todos os casos. As projeções certeiras são a marca do jornal, e não é de hoje.
Sobre a eleição alagoana, César Tralli falava com convicção: “Olha só, Alagoas é o único estado que ainda não tem uma definição. Renan Filho e JHC estão voto a voto”. Enquanto isso, mais de duas horas antes, cravado na Folha: “JHC é eleito governador de Alagoas”. Eu falei em mais de duas horas de antecedência, e isso não é força de expressão.
Parecia coisa de doido. Deu-se o mesmo, reitero, nas disputas para presidente e para todos os governadores. Âncoras de todas as emissoras sabiam que o jogo estava encerrado, mas continuavam agindo como se tudo estivesse em aberto. Claro que foi uma determinação do comando, para manter o interesse da audiência.
É um exotismo acima do aceitável, penso eu. Porque a Folha não estava especulando – o que seria absurdo. Era informação incontestável, baseada em dados científicos, em estatística e matemática. Ao insistir num suspense que não existia, veículos de imprensa, na prática, enganavam deliberadamente. Ignorar os fatos não altera a realidade.
Ou a concorrência da Folha repensa a postura ou seguirá passando vexame.
