Mais de 900 mil eleitores de Alagoas escolheram Marina JHC para exercer o mandato de senadora pelos próximos oito anos. Se você contribuiu com essa montanha de votos para ela, saiba que a senadora “eleita” tem outro nome. Quem vai assumir o cargo em Brasília é Doutora Eudócia, a mãe do governador eleito JHC. É praticamente um estelionato contra quase um milhão de pessoas que votaram numa fantasia.

Sim, está tudo dentro da lei, tudo de acordo com o que prevê o arcabouço legal um dia aprovado pelos legisladores. Por isso, como já defendi neste blog, a figura do suplente de senador deveria ser extinta. A regra deveria ser a mesma que vale para deputados. Se o eleito não assume, que o mandato seja do segundo colocado nas urnas.

A matriarca dos Caldas é a primeira suplente de Marina – e isso não se deu por acaso. Faz parte da engenharia política do filho JHC. Eudócia já é senadora desde 2024, quando Rodrigo Cunha renunciou ao mandato para ser vice de João Henrique na eleição para prefeito de Maceió. Deu certo. Dona Eudócia também era suplente de Cunha.

Para estar numa cadeira do Senado, o eleito tem de residir em Brasília. Mesmo com sessões remotas, a presença física ainda é obrigatória. Como o maridão precisa morar em Maceió para governar o estado, Marina deve ser nomeada para uma secretaria ou qualquer outro cargo. Aí, dê-se posse à primeira suplente, senadora com zero voto.

Oito anos de mandato para uma senadora eleita por ninguém. É uma estupidez normalizada por uma legislação de tintas kafkianas. E o desprotegido eleitor, sem de nada ser prevenido, é trapaceado na cara dura, feito de Zé Mané por seus “legítimos representantes”. É ou não é uma doideira capaz de produzir indignação? Penso que sim.

Que fique devidamente claro isto aqui: a família Caldas – que veio ao mundo para renovar a política – não inventou a fórmula de cambalacho na formação do Senado. Basta citar o exemplo mais próximo, o senador Renan Filho. Nomeado ministro no governo Lula, em seu lugar assumiu outro senador sem voto cujo nome nem lembro. 

Acabar com esse descalabro seria uma imposição lógica numa reforma política pra valer. Mas quem disse que isso tem alguma chance de prosperar numa quadra como esta que atravessamos? Além do mais, assim é porque o modelo – falido – serve para todos, não importa a faixa ideológica que defendam. Então, para que serve o voto?

Em nome de projetos pessoais, o eleitorado é acintosamente enganado.