Nomes de peso na política nacional se deram mal nas eleições em 2026, alguns com longa trajetória e sucessivos mandatos. Eles estavam nas disputas para os governos estaduais e para o Senado. De Renan Calheiros a Marina Silva, de ACM Neto a Ciro Nogueira, de Fernando Haddad a Randolfe Rodrigues, o bloco é plural. Devem dar um tempo, avaliar motivos do fracasso e, após a ressaca, tramar a volta adiante.
É assim na política em particular, é assim na vida em geral. E, importante ressaltar, cada caso é um caso, porque cada um é cada um (até parece que andei lendo a alta literatura de Augusto Cury...). Dos nomes citados, os mais veteranos talvez decidam que é hora de parar de vez. Podem seguir na vida pública, mas longe das urnas e de eleições.
Nenhum dos citados e mais alguns tiveram uma derrota como a do paulista Ciro Ferreira Gomes, a um mês de completar 69 anos de idade. Mais de três décadas após ser governador do Ceará, ele tentava retornar ao posto galopando uma aliança que merece um tratado de ciência política para ser devidamente decifrada.
Pelo que pregou a vida inteira, pelos princípios que sempre defendeu, ele não teve como explicar a sociedade com o bolsonarismo. Virou as costas para ideias e companheiros de estrada, e foi rastejar diante dos tipos cearenses ligados à extrema direita que ele sempre combateu. Agarrou-se a quem sempre o tratou com vileza e desprezo.
A crônica da morte anunciada acabou do jeito que tinha de acabar. Ciro perdeu para o petista Elmano de Freitas, um de seus camaradas até um dia desses. Perdeu no primeiro turno. Os dois candidatos a senador na boleia de sua caravana também foram rifados nas urnas. Os senadores eleitos foram Cid Gomes e Luizianne Lins.
Cid é o irmão rompido com Ciro. Pois é: tem esse detalhe com arquitetura de infâmia, um capítulo que remete a sombrios relatos da mitologia universal. Ciro atirou azia e veneno para os antigos parceiros de aventuras idealistas. Tudo, tudo mesmo, para ganhar uma disputa eleitoral – para recuperar uma mixaria de poder. O preço foi devastador para ele.
Durante a campanha, sobretudo nos debates, Elmano expôs o vexame de uma contradição que demoliu seu adversário. E Ciro não conseguia disfarçar a agonia ao ser confrontado com a baixeza de suas escolhas. Quanto mais tentava explicar tamanha aberração, mais se enredava no emaranhado do absurdo inexplicável.
Perder, muitos perderam. É do jogo. Igual a Ciro Gomes, aí não. É a desonra.
