O Jornal Nacional desta sexta-feira 2 de outubro começou com um espetáculo de dissimulação, hipocrisia e distorção grosseira da realidade. A direção do jornalismo escalou Pedro Bassan, um dos melhores repórteres da casa, para expor um relato parcial, para dizer o mínimo, sobre o episódio do debate cancelado. A emissora segue com sua versão de que foi alvo de “interferência” e de “censura” por parte da Justiça.
Para sustentar a fábula, a reportagem contou com depoimentos de “especialistas” que trataram de reproduzir o pensamento único que interessa à gigante da comunicação. Professores, juristas e diretores de entidades perfilaram com a mesma ideia: a democracia sofreu um duro golpe com as decisões de integrantes do TSE e do STF.
Nada mais farsesco. A prática é antiga e recorrente na boa e velha imprensa. O eixo da reportagem é decidido na redação, escala-se um talentoso profissional para escrever o que o veículo quer emplacar e, somente depois, vamos à rua buscar as declarações que interessam. São as entrevistas que se encaixam na história que decidimos contar.
Uma multidão de outros juristas, especialistas e professores discorda do que a Globo mostra em sua reportagem. Mas quem pensa diferente não existe para o tema em questão. Essas vozes, claro, não entram na matéria do repórter. Assim, o JN vende uma unanimidade de opinião que é tão falsa quanto seu apreço pelas regras democráticas.
É o chamado jornalismo de tese. A Veja não inventou o método, mas o elevou ao estado da arte, digamos assim, no auge de seus melhores piores momentos. As capas da revista são decididas com este ou aquele enfoque, com texto dos melhores redatores. Depois, com declarações sob encomenda, tem-se a mentira maquiada como verdade factual.
Nesse modelo, costumam dizer os próprios jornalistas envolvidos nessas operações, os fatos são torturados para expressar o pensamento em nome dos interesses particulares da empresa. É com essa metodologia que a grande imprensa tenta se impor como o quarto poder – clássica expressão – acima dos três poderes da República.
Não houve nem censura nem interferência indevida no jornalismo da Globo. Houve decisões da Justiça – legítimas e baseadas na lei. Todo mundo pode discordar e criticar. É assim na democracia. Mas a TV da família Marinho recorre à farsa para empurrar goela abaixo dos brasileiros a cantilena de “vítima de ações indevidas do Judiciário”.
A Globo cancelou o debate porque quis cancelar. Porque era o que lhe interessava. Porque não poderia levar adiante o circo que estava armado contra um dos candidatos na eleição, no caso o presidente do país. No mais, é chororô e ataque a uma instituição.
Ainda assim, a repercussão é negativa para a emissora. Os tempos são outros – e aqui está uma das virtudes da revolução digital: a Globo perdeu aquele poder descomunal, o monopólio na divulgação de informações. Finalmente, a diversidade. Por aí.
