E ainda tem gente reclamando por aí que o processo eleitoral de 2026 está sem graça e desanimado. Não seria o contrário? Pelo que ocorreu na noite desta quinta-feira, dia primeiro de outubro, impõe-se aquele clichê segundo o qual “de tédio a gente não morre”. Primeiro o fato inédito, ao menos na Globo: a emissora cancelou o debate com candidatos que disputam a presidência da República após sucessivas decisões judiciais.

Nas últimas três décadas e meia, desde a redemocratização, outras televisões e veículos cancelaram debates após a desistência de candidatos. Faltar a esses encontros não é nada incomum. Collor, Fernando Henrique, Bolsonaro e Lula já fizeram essa opção na história das eleições brasileiras – isso para citar apenas a disputa pelo Planalto.

De volta ao contexto atual. Lula já havia informado à Globo que não iria. Flávio Bolsonaro estava animado para falar à vontade entre adversários de mentirinha – como Zema, Caiado e Cury. Ao ver a notícia de que o ministro do STF Gilmar Mendes autorizou a participação de Renan Santos, até então barrado pela Globo, o valentão pulou fora.

Além de Lula, o candidato do Missão é o único com artilharia pesada contra Flávio. Os outros falam manso com o filho do Jair porque precisam dos votos da mesma praia ideológica. No segundo turno, todos vão abraçar o representante da extrema direita. Sem Lula e sem Renan, seriam quatro celerados atacando Lula, o ausente, o “fujão”. 

A outra decisão foi da ministra do TSE Estela Aranha. Ela proibiu a Globo de mostrar, ao longo do programa, o lugar vazio destinado a Lula. Segundo ela, isso desrespeita o caráter facultativo da presença do convidado. Nenhuma lei no mundo obriga ninguém a ir a um debate. Os presentes também não poderiam fazer perguntas à cadeira vazia. 

Como estratégia, a turma de Lula entendeu que comparecer não seria uma escolha inteligente. Seria, repito, todos contra um. Isso não é segredo para ninguém. Flávio, no entanto, mente ao dizer que desistiu porque a Justiça “censurou” a Globo. Olha a ironia! Um bolsonarista em defesa da liberdade de imprensa e da “Globo Lixo” em particular.

“Globo Lixo” é expressão da ultradireita e da turma miliciana aliada aos Bolsonaro. A emissora diz que cancelou o evento porque as decisões do TSE e do STF provocam “insegurança jurídica”. Além disso, apelou ao mesmo argumento de Flávio – o exercício livre do direito de informar. A cronologia da noite, porém, levanta uma desconfiança.

O anúncio do cancelamento veio somente após a decisão de Gilmar Mendes sobre Renan Santos. Nada impedia a Globo de realizar o debate com ele, Zema, Caiado e Cury. A escolha da empresa acabou servindo aos interesses de Flávio Bolsonaro.

No mais, o veículo se juntou aos demais candidatos nas lamúrias, passando a ideia de que a Justiça agiu para beneficiar o presidente em busca da reeleição. Os jornalões, claro, já sacaram seus editoriais indignados em defesa da democracia e da liberdade de imprensa. Exatamente como fizeram em todos os golpes ao longo da história brazuca.

Que efeitos ou estragos tudo isso terá sobre o eleitorado? Provavelmente zero.