Olha que coincidência! Tem gente por aí, pelos bairros de Maceió, distribuindo cestas básicas aos necessitados da capital. Mas logo agora, a dois dias da eleição? Certamente a “ação social” combina com o calendário eleitoral por obra e graça do acaso. Segundo informa nossa imprensa, um homem responsável por esse ato de combate à pobreza foi preso em flagrante pela Polícia Militar e conduzido às instalações da Polícia Federal.

Na ação, a PM apreendeu um veículo que estava com o cidadão que distribuía os alimentos. O carro está plotado com uma propaganda vistosa de um candidato a deputado estadual. No interior do veículo, também havia farto material de propaganda de candidatos majoritários. Tudo foi levado à PF para o devido esclarecimento.

Temos aqui um clássico da crônica política brasileira. A suspeita evidente é de que se trata de compra de votos. As partes envolvidas no estranho episódio se manifestaram por nota. O candidato à Assembleia diz que um “eleitor” seu estava apenas tentando pegar uma cesta para ele. Tudo normal. Os majoritários insinuam armação das forças policiais.

As duas explicações são um tanto exóticas diante do flagrante perpetrado à luz do sol, no meio da rua, com dezenas de testemunhas. Mas vamos dar o chamado benefício da dúvida, este princípio incontornável da boa e velha democracia. Ninguém é culpado de nada até prova em contrário. Tomara que a PF desvende essa coincidência.

Também nesta sexta-feira a PF andou por algumas agências bancárias que teriam registrado um movimento atípico de saques na boca do caixa. Outro clássico eleitoral brazuca. A cada eleição, repete-se o mesmo padrão. Dois ou três dias antes da votação, bancos recebem aviso de que haverá retiradas muito acima de valores rotineiros.

Nas últimas semanas, as forças policiais chegaram a endereços e a pessoas com vultosas quantias em dinheiro vivo. Os suspeitos de possível maracutaia não conseguiram explicar a origem e a destinação do capilé. Os episódios ocorreram na capital e no interior do estado. Como sempre, os presos são apenas os peixes pequenos.

Em algumas dessas situações, há um aspecto tragicômico. É quando os principais suspeitos de delinquência são figuras que estão em campanha para “combater a velha política”, “fazer a verdadeira mudança”, operar “uma faxina geral” e – sempre e sempre – “mudar tudo isso que aí está”. Porque há coisas que nunca vão mudar nesse mundo.

A compra de votos é a sabotagem mortal da cidadania. Como é uma tradição eterna, resta cobrar que as instituições atuem com rigor – ao menos para reduzir danos.