Não se sabe bem como a onda começou. De repente, a “informação” explodiu nas redes sociais. Se for eleito presidente, Flávio Bolsonaro vai “destituir” Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil. Segundo a versão que viralizou na internet, o candidato já teria pronto um decreto com essa finalidade. A fake news atormentou a campanha de Flávio, que correu para se explicar diante do eleitorado. Alerta de perigo.

O boato tem uma origem remota, como mostrou a imprensa. Em 2007, um deputado federal chegou a formalizar um projeto com tal finalidade na Câmara, mas a presepada foi para o arquivo no ano seguinte, 2008. Corta para o governo de Jair Bolsonaro: o mesmo deputado hostil à santa virou assessor especial da Presidência da República.

Flávio recorreu ao TSE para derrubar textos e perfis nas redes que estivessem reproduzindo a acusação baseada na falsidade. Ao atender o candidato, o ministro André Mendonça (vice do TSE) acabou, sem querer, atestando a ligação do clã Bolsonaro com as milícias. Isso porque ele censurou o humorista Antonio Tabet, que, sem citar nomes, escreveu no X sobre a “família miliciana” que despreza a padroeira.

Não é de hoje que Nossa Senhora encara investidas contra seu status no país. Um dos episódios mais barulhentos ocorreu nos anos 1990. A frase “o pastor que chutou a santa” ocupou as manchetes durante semanas. A notícia – verdadeira nesse caso – decorria de vídeo no qual um pastor da igreja Universal dá chutes numa imagem da padroeira.

Com o crescimento vertiginoso do ramo evangélico, sim, existe pressão para desidratar símbolos do catolicismo. E, nesse ambiente, o fanatismo encontrou no discurso da extrema direita uma pista pavimentada para avançar. Estão aí Michelle Bolsonaro e os filhos do Jair posando de figuras devotas a Deus na chamada “guerra santa”.

Bolsonaristas tentam atribuir ao PT a desinformação sobre a santa. Não há qualquer indício que sustente tal acusação. O que existe, sim, é o faro político para surfar na confusão. Foi o que fizeram, ao que parece, a primeira-dama Janja da Silva e o vice Geraldo Alckmin. No mais, sobre fake news, a tropa da extrema direita tem até PhD.

Recorrendo ao bom e velho clichê, pode-se afirmar que Flávio provou do veneno do qual sempre se valeu para atacar os adversários, em especial Lula e o PT. O padrão continua firme nessa turma. Agora mesmo, na eleição alagoana, tem um candidato a deputado requentando o “kit gay criado pelo Lula”. Uma delinquência descarada.

Na mesma linha de vigarice politiqueira, em eleições passadas o bolsonarismo tratou de espalhar isto aqui: numa terrível “perseguição ao povo de Deus”, Lula e o PT tramavam o fechamento das igrejas evangélicas. Ditos pastores e políticos com mandato deram tração à mentira com a tranquilidade dos psicopatas. Está tudo registrado.

De volta à padroeira, religião e política não deveriam se misturar. Essa parceria espúria é um desastre para a democracia. Mas essa é uma guerra perdida. Quanto mais o tempo passa, mais temos de suportar picaretas falando em nome do Senhor. Nunca sabemos quando o discurso está mais para a ignorância ou para a simples politicagem.

Se os crentes no Reino do Céu agem como agem, pense nos devotos do capeta.