Uma expressão das antigas retorna na reta final da campanha eleitoral para presidente da República. Trata-se do chamado “voto útil”. A ideia irrita os candidatos que não ocupam o pelotão da frente. O termo já apareceu nas duas candidaturas, de Lula e Flávio Bolsonaro. Em 2018 e 2022, petistas e bolsonaristas também apelaram para o mesmo argumento. Não há como saber se, na hora de votar, isso pesa para algum eleitorado.
Na prática é o seguinte: se as pesquisas mostram que apenas dois postulantes têm reais chances de vitória, por que “desperdiçar” seu voto em alguém cuja derrota é uma certeza antecipada? Melhor escolher entre os favoritos, ainda que não seja o candidato dos sonhos para você. Melhor garantir que o “menos pior” seja eleito.
O apelo ao voto útil procura o eleitor que tem preferência por um nome que está bem atrás nas pesquisas, mas também mira aqueles que se dizem indecisos diante de duas alternativas que não lhe agradam. Com essa lógica, deixa-se de lado a escolha original – fadada ao fracasso – e vamos garantir ao menos um nome suportável.
O discurso nesse sentido, quando ocorre, aparece nos últimos dias da campanha. À beira das urnas, o eleitor que não escolheria nenhum dos líderes acaba por se dobrar, ainda que resignado, às evidências de derrota do seu escolhido originalmente. Assim, esse eleitor se contenta em dar alguma utilidade a seu voto em nome do pragmatismo.
Esse voto de “utilidade” também pode servir para evitar uma derrota no primeiro turno – ou o contrário: garantir a vitória ainda na primeira rodada de votação. Tem de tudo nesse balaio de ideias, teorias e suposições. Sempre, é bom lembrar, contando com o que vai de imprevisível à cabeça do público votante. Nada está garantido na largada.
Na disputa presidencial, a lógica aponta que o discurso do voto útil caberia mais a Flávio Bolsonaro. Afinal, além de Lula, os demais adversários que pontuam nas pesquisas estão no mesmo campo da direita ou da extrema direita, próximos do Zero Um, distantes do petista. Flávio tomaria os votos de Zema, Caiado e Renan Santos.
Mas a campanha de Lula também recorre a essa estratégia. Nesse caso, de olho no percentual do eleitorado que ainda se diz instalado na dúvida, na indecisão. Além disso, o PT acredita que os simpatizantes de Augusto Cury tenderiam mais ao presidente do que a Flávio, caso tenham de fazer essa escolha. A conferir na hora H.
Como ninguém gosta de perder, é plausível que, em determinados cenários, a antiga faixa do voto útil acabe atraindo um bloco de eleitores. Lula e Flávio correm atrás.
