Há um perigo curioso nas democracias modernas: o de confundirmos bons governantes com governantes agradáveis. A distinção parece pequena, mas não é. Uma coisa é governar para melhorar a vida das pessoas; outra, bastante diferente, é governar para mantê-las permanentemente satisfeitas. A primeira exige coragem. A segunda, quase sempre, apenas boa propaganda.

Também governos podem virar creches e eleitores, sem perceber, podem começar a escolher não quem melhor governa, mas quem melhor os entretém.

É uma tentação antiga. Entre aquele que anuncia uma decisão difícil e aquele que promete que ninguém precisará fazer sacrifício algum, o segundo começa a eleição alguns metros adiante. Entre quem apresenta uma planilha e quem apresenta um vídeo, convenhamos que a planilha jamais foi adversária eleitoral muito competitiva. Os números têm esse péssimo defeito de não sorrirem para a câmera.

O problema começa quando governar passa a ser uma espécie de administração permanente de afetos. Tudo precisa ser agradável, colorido, simples e imediatamente compreensível. A obra importa, mas a fotografia da obra talvez importe mais. A política pública precisa existir, naturalmente, mas convém que tenha um bom nome. O problema pode continuar lá; o essencial é que a narrativa já tenha encontrado solução para ele.

Pouco a pouco, o governante deixa de exercer liderança e passa a exercer popularidade. Se aparece uma dificuldade, procura-se um culpado. Se surge uma crítica, trata-se o crítico como inimigo. Se uma providência necessária é impopular, adia-se a providência. E, quando os resultados demoram, aumenta-se a comunicação. É um método engenhoso: quando a realidade não melhora na velocidade desejada, melhora-se a versão da realidade.

Não há nisso grande novidade. Mudaram as roupas, chegaram as redes sociais e os vídeos agora são verticais, mas permanece bastante humana a preferência pela aparência quando a substância cobra um preço maior. A política sempre conheceu essa inclinação. Nosso tempo apenas lhe deu câmera, algoritmo e edição.

Governar adultos é muito mais trabalhoso. Significa dizer que o orçamento tem limite, ainda que os desejos não tenham. Significa escolher prioridades sabendo que escolher uma coisa é, necessariamente, deixar outra para depois. Significa cobrar desempenho, premiar competência, reconhecer erros, corrigir rumos e, sobretudo, dizer “não”. Palavra curta, antipática e indispensável a qualquer governo responsável.

Há uma diferença fundamental entre respeitar o cidadão e infantilizá-lo. Respeitá-lo é dizer a verdade, inclusive quando a verdade não rende aplausos. É apresentar metas e aceitar ser cobrado por elas. É explicar quanto custa, de onde virá o dinheiro e em quanto tempo será entregue. Infantilizá-lo é oferecer a confortável impressão de que tudo é possível ao mesmo tempo, que todo benefício dispensa um custo e que, para cada problema, existe uma solução instantânea esperando apenas a próxima postagem.

A política contemporânea tornou essa tentação ainda maior. Nunca foi tão fácil confundir visibilidade com realização. Um governo pode aparecer todos os dias sem necessariamente avançar um metro. Pode inaugurar anúncios, celebrar intenções e transformar providências ordinárias em acontecimentos históricos. A comunicação, que deveria servir para explicar o governo, corre então o risco de passar a existir para substituí-lo.

É justamente por isso que talvez devêssemos acrescentar algumas perguntas àquelas que fazemos antes de votar. Este candidato sabe dizer “não”? Já administrou alguma coisa complexa? Escolhe auxiliares melhores do que ele ou apenas mais obedientes? Reconhece um erro? Cumpre metas? Entende que dinheiro público pertence ao contribuinte? Prefere resolver um problema ou aparecer resolvendo-o?

São perguntas menos emocionantes que um jingle, admito. Entretanto, governos costumam durar mais que campanhas eleitorais E se forem ruins as consequências são duradoradoras e algumas podem ser difíceis de se reverter. Soberania, uma vez perdida, leva a muita luta para se recupera. A história é cheia de exemplos. O governantes incompetentes geram na maioria das vezes prejuízos que duram décadas para serem resolvidos. 

O melhor governante não é necessariamente aquele que nos promete conforto permanente. Às vezes é justamente aquele que nos respeita o suficiente para dizer que haverá escolhas difíceis. Não oferece felicidade por decreto nem proteção contra qualquer frustração. Cria condições para que as pessoas construam a própria vida: educação, segurança, infraestrutura, oportunidades, instituições que funcionem e liberdade.

Existe, afinal, uma forma bastante sofisticada de populismo que consiste em tratar cidadãos adultos como crianças. O governante oferece proteção, distribui agrados, faz festas, pede confiança e, em troca, espera dependência e gratidão. Parece generosidade. Pode ser apenas poder vestido com roupas mais simpáticas.

Uma democracia madura deveria desejar exatamente o contrário: cidadãos menos dependentes do governante e mais capazes de caminhar por conta própria; instituições mais fortes que seus ocupantes; políticas públicas que sobrevivam às eleições; governos que possam ser avaliados pelo que deixaram, e não pelo número de vezes que apareceram dizendo que estavam deixando alguma coisa.

Talvez, portanto, devêssemos chegar à urna com uma pergunta menos confortável do que aquelas que costumamos fazer. Não quem promete mais, quem sorri melhor ou quem aparece todos os dias diante de uma câmera. Mas quem está preparado para nos tratar como adultos. Preparado para lidar com problemas reais e que tome decisões com base em dados, evidências e nas melhores práticas e experiências de gestão.

Porque governar cidadãos adultos dá trabalho. É preciso explicar limites, contrariar interesses, escolher prioridades, dizer não e, sobretudo, prestar contas. Infantilizá-los é bem mais fácil: distribuem-se agrados, fabricam-se culpados, multiplicam-se anúncios e oferece-se a cada um a agradável sensação de que a conta será paga por outra pessoa.

Toda creche, afinal, tem brinquedos, cores, histórias bonitas e alguém encarregado de manter as crianças satisfeitas. O problema começa quando descobrimos que a creche era o governo, que os brinquedos foram comprados com o nosso dinheiro e que a conta também ficou para nós. Por isso, na próxima eleição, talvez valha trocar a pergunta. Não pergunte qual candidato promete cuidar melhor de você. Pergunte qual deles acredita que você é adulto o suficiente para não precisar de uma babá.

Democracias amadurecem quando seus cidadãos amadurecem também.

E urna não é berço, não é lugar para dancinha e brincadeira. É onde devemos buscar os melhores gestores politico que saibam fazer e dialogar como Adulto.

George Santoro