
A história administrativa de Alagoas e do Brasil ensina que governar é, antes de tudo, escolher entre o improviso e a responsabilidade. Os grandes gestores públicos que marcaram época compreenderam isso com clareza. Graciliano Ramos, ao assumir a prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928, deixou uma lição que atravessou gerações: governar é prestar contas. Seu famoso relatório de gestão, seco, preciso e honesto, tornou-se referência nacional justamente porque tratava o dinheiro público como patrimônio coletivo e não como instrumento político. Em uma de suas passagens mais lembradas, afirmou que “prefeito não deve gastar mais do que arrecada, nem prometer mais do que pode cumprir”. Era a essência da accountability antes mesmo de a palavra se tornar corrente na administração pública.
Essa tradição de responsabilidade fiscal e rigor administrativo reapareceu em momentos decisivos da história nacional. José Maria Alkmin, um dos grandes formuladores da política econômica brasileira, costumava repetir que “o equilíbrio das contas públicas é condição para a liberdade de governar”. Para ele, disciplina fiscal não era austeridade cega, mas a base da autonomia do Estado. Sem contas organizadas, o governante perde capacidade de decisão; com contas equilibradas, ganha capacidade de investir e transformar a realidade social.
Foi essa lógica que sustentou o projeto de desenvolvimento liderado por Juscelino Kubitschek. Ao lançar o Plano de Metas, JK sintetizou seu método em uma frase que se tornou símbolo de gestão pública orientada a resultados: “Governar é abrir estradas”. A metáfora era clara. Estradas representam acesso, mobilidade, crescimento e integração econômica. Representam, sobretudo, futuro. Não por acaso, seu governo ficou associado à aceleração do desenvolvimento e à construção de infraestrutura como instrumento de transformação nacional.
Décadas antes, Getúlio Vargas já havia estabelecido outro princípio fundamental da administração pública moderna: o Estado deve ser capaz de organizar a economia e proteger a sociedade. Sua visão de governo estava ancorada na ideia de que responsabilidade fiscal e política social não são opostos, mas complementares. Como ele próprio afirmou em um de seus discursos mais conhecidos, “governar é encarar os problemas do povo como responsabilidade do Estado”. Essa concepção moldou instituições, estruturou políticas públicas e consolidou o papel do planejamento governamental no Brasil.
Quando se observa a trajetória recente de Alagoas sob essa lente histórica, percebe-se que o Estado passou por diferentes ciclos administrativos ao longo das últimas décadas. Cada governo enfrentou desafios próprios e deixou contribuições relevantes para a construção institucional. Houve momentos de reorganização, de transição e de estabilização. Mas também houve um período em que o Estado mudou de patamar.
A partir de 2015, iniciou-se um processo sistemático de reorganização fiscal e administrativa que alterou de forma estrutural a capacidade de governar em Alagoas. Não se tratou apenas de ajuste contábil ou de contenção de despesas. Tratou-se de reconstruir a credibilidade financeira e de governabilidade do Estado, restabelecer sua capacidade de investimento e criar condições para políticas públicas mais eficazes com foco nos quem mais precisam dos serviços públicos. O resultado foi um ciclo consistente de equilíbrio fiscal, redução do endividamento, expansão do investimento público e dos programas sociais.
Os números confirmam essa mudança de trajetória. Alagoas passou a registrar um dos maiores volumes de investimento proporcional do país, financiado majoritariamente com recursos próprios. O comprometimento com despesas obrigatórias foi reduzido para níveis sustentáveis, a capacidade de pagamento foi restabelecida e o Estado voltou a planejar o futuro com previsibilidade. Essa transformação permitiu ampliar investimentos em infraestrutura, saúde, educação e segurança pública, gerando impactos diretos na qualidade de vida da população.
O reconhecimento não veio apenas de indicadores internos. Instituições nacionais passaram a apontar Alagoas como referência em responsabilidade fiscal e gestão pública. O Estado deixou de ser associado a restrições financeiras e passou a ser citado como exemplo de disciplina administrativa e capacidade de investimento. Esse reconhecimento institucional é talvez o indicador mais confiável de maturidade fiscal, porque reflete a confiança do mercado, dos órgãos de controle e da sociedade.
Nesse contexto, torna-se inevitável destacar o papel desempenhado por Renan Filho. Sua gestão não se limitou a administrar o presente; construiu bases para o futuro. Ao reorganizar as finanças públicas, ampliar investimentos, fortalecer a governança administrativa e a transparência, estabeleceu um novo padrão de gestão no Estado. Os resultados foram estruturais e duradouros, não episódicos. Alteraram a capacidade permanente de governar.
Por isso, ao comparar as gestões dos últimos governadores de Alagoas, a análise precisa ser feita com rigor técnico e honestidade histórica. Todos contribuíram para o desenvolvimento institucional do Estado. Mas os resultados obtidos em determinado período produziram uma inflexão clara na trajetória administrativa. Não foi apenas continuidade de políticas públicas. Foi mudança de patamar.
Essa diferença aparece quando se observa a sustentabilidade das contas públicas, a capacidade de investimento, a previsibilidade fiscal e o impacto social das políticas implementadas. Aparece, sobretudo, quando se avalia o legado institucional deixado para as gerações seguintes. Governos que organizam as finanças públicas e criam condições para o crescimento sustentável não apenas administram o presente; moldam o futuro.
A história mostra que grandes gestões públicas não se definem pelo volume de promessas, mas pela consistência dos resultados. Graciliano Ramos ensinou que governar é prestar contas. José Maria Alkmin demonstrou que equilíbrio fiscal é liberdade administrativa. Juscelino Kubitschek provou que investir em infraestrutura é construir desenvolvimento. Getúlio Vargas consolidou a ideia de que o Estado deve proteger e organizar a sociedade.
Alagoas, em sua trajetória recente, incorporou essas lições. E quando se analisam os dados com seriedade, a conclusão é inevitável: houve um período em que o Estado deixou de administrar escassez e passou a administrar possibilidades. Esse é o verdadeiro significado de legado. Não é apenas fazer mais. É transformar para sempre a capacidade de governar.
George Santoro
