Maceió é uma cidade a quem Deus deu o azul do mar, o verde das lagoas e uma luz que dispensaria propaganda. Poucas cidades brasileiras nasceram tão privilegiadas pela natureza. Mas os homens, sempre mais vaidosos que prudentes, parecem ter resolvido administrar esse milagre como quem organiza um baile: muito enfeite, pouca fundação.

A legislação urbana há muito deixou de acompanhar o crescimento da cidade. O Plano Diretor precisa deixar de ser um documento burocrático para se tornar um verdadeiro instrumento de desenvolvimento. É preciso ordenar a ocupação do solo, preservar encostas, lagoas, manguezais e praias, controlar o adensamento, estimular centralidades e garantir que a expansão urbana valorize, e não destrua, o maior patrimônio de Maceió: sua natureza exuberante.

Os sinais do esgotamento já aparecem na mobilidade. Segundo o IBGE, Maceió se aproxima de 1 milhão de habitantes. Ao mesmo tempo, dados do Detran/AL mostram uma frota superior a 430 mil veículos. Não existe solução para esse desequilíbrio sem planejamento. A cidade precisa de novas ligações viárias, corredores estruturantes, integração entre modais, gestão inteligente do tráfego e um transporte coletivo capaz de competir com o automóvel. Congestionamentos não são um fenômeno natural. São consequência da ausência de planejamento.

O transporte público também deixou de ser tratado como prioridade. Um sistema lento, desconfortável e pouco integrado reduz oportunidades de emprego, aumenta o custo de vida e aprofunda desigualdades. Mobilidade não é apenas deslocamento. É acesso à educação, à saúde, ao trabalho e à cidadania.

Na área social, o desafio é igualmente grande. Os equipamentos de assistência precisam deixar de atuar apenas de forma reativa. É necessário fortalecer os CRAS, ampliar programas voltados à primeira infância, investir em qualificação profissional e criar mecanismos que permitam às famílias superar a dependência de programas assistenciais. A melhor política social continua sendo a oportunidade.

Essa oportunidade nasce do empreendedorismo. Maceió precisa construir um ambiente favorável para quem deseja produzir, investir e gerar empregos. Crédito orientado para pequenos negócios, fortalecimento das Salas do Empreendedor, simplificação regulatória, capacitação, inovação e compras públicas voltadas às empresas locais produzem muito mais desenvolvimento permanente do que políticas baseadas apenas no consumo de curto prazo.

O paradoxo é evidente. Prefeitos têm alcançado elevados índices de aprovação sem enfrentar, de maneira estrutural, os principais problemas da cidade. Como em tantos contos de Machado de Assis, a aparência muitas vezes vence a substância. A plateia aplaude o espetáculo enquanto a casa, silenciosamente, acumula rachaduras. A cidade recebe eventos, inaugura cenários, celebra festas. Mas continua presa no trânsito, com um transporte coletivo insuficiente, crescimento urbano desordenado e oportunidades econômicas abaixo do seu potencial.

Festa é importante. Cultura merece investimento. A cidade precisa celebrar sua identidade. Mas nenhuma sociedade prospera quando transforma o excepcional em prioridade permanente e o essencial em assunto secundário.

Maceió tem condições de ser uma das melhores cidades do Brasil para viver. Tem localização privilegiada, capital humano, potencial turístico, vocação para serviços, comércio e economia criativa. O que falta não é beleza. É projeto.

E é justamente aí que mora a maior lição. Administrar uma cidade já exige trabalho, coragem e competência. Governar um Estado exige ainda mais. Não é tarefa para amadores nem para animadores de festa. Não se governa com palcos, fogos e fotografias. Governa-se com planejamento, prioridades, escolhas difíceis e capacidade de enfrentar problemas que não rendem aplausos imediatos. A política que troca obras estruturantes por entretenimento pode produzir popularidade, mas dificilmente produz desenvolvimento.

Graciliano Ramos talvez resumisse isso de forma mais simples: a realidade não se comove com discursos. Ela cobra resultados.

No fim, a conta sempre chega. E quem a paga é o cidadão que perde horas no trânsito, espera um ônibus que não vem, vê a cidade crescer sem ordem e percebe que sua qualidade de vida avança menos do que poderia.

Governar é um ofício. Exige estudo, disciplina, experiência e responsabilidade. O resto é espetáculo. E espetáculo, por melhor que seja, termina quando as luzes se apagam. A cidade permanece.

George Santoro