A divulgação da foto que mostra Flávio Bolsonaro ao lado do senhor Sicário consolida uma nova tendência no mundo da política: a partir de agora, qualquer imagem comprometedora será tratada como “montagem” por inteligência artificial. É uma “explicação” cada vez mais comum para o malfeito praticado pelos “representantes do povo”. Processo semelhante ocorreu com a expressão fake news.

O ICL Notícias, que revelou o encontro descontraído entre o Zero Um e o capanga de Daniel Vorcaro, submeteu a fotografia a quatro ferramentas que poderiam atestar eventual manipulação. Nada. Ou melhor, tudo na imagem é real. Sinal zero de que aquilo seja fabricado com IA. Flávio precisa encontrar outra desculpa para se safar.

E o que fazem integrantes do bolsonarismo, a começar por Eduardo, o foragido? Correm às redes para espalhar a versão de que aquele flagrante é sim fruto de IA. O curioso é que o próprio Flávio só apelou para essa fantasia dois dias depois da divulgação. Primeiro, ele disse que todo político tira centenas de fotos com desconhecidos.

Nessa mesma linha, afirmou que, como é “um cara muito popular, graças a Deus”, basta botar o pé fora da mansão onde mora que já é assediado para um clique. Não desmentiu a veracidade do retrato íntimo com alguém que posa a seu lado como se fosse um parça. Sem camisa, aquilo não é um evento casual. É uma farra com sua galera.

O pré-candidato a presidente não diz que a foto é mentirosa porque sabe que mais coisas estão a caminho. É o que se fala entre os próprios aliados, sobretudo no PL de Valdemar Costa Neto. Assim como o rapaz mentiu várias vezes sobre a relação com Vorcaro, sua palavra vale tanto quanto uma cédula de três reais. O que fazer então?

Voltamos à IA. Nas últimas 24 horas, a seita chefiada pelo condenado por golpe de Estado manda ver no Metaverso. A militância segue roteiro planejado, com linguagem combinada. A ordem é atacar em duas frentes: produzir vigarices contra a imprensa e tratar com humor mais uma bomba na campanha. Querem fazer da suspeita um meme.

Quando Donald Trump sacou a expressão fake news, inaugurava um método que permanece até hoje. Bastam as duas palavrinhas mágicas e pronto: a acusação está “respondida”. O bolsonarismo adotou essa ladainha lá em 2018 – e Bolsonaro abusou da estratégia durante seus quatro anos emporcalhando o Palácio do Planalto.

Esta é a primeira eleição em que a IA será usada como nunca na produção de peças de campanha, dentro e fora da lei. Além disso, reitero, IA passa a ser a “explicação” para qualquer flagrante de maracutaia. Nessa função, “fake news” perde pontos. Natural que a tecnologia seja a protagonista – na verdade e na mentira, na lisura e na fraude.