É por essas e outras que não se deve levar a sério o que dizem os falastrões da política. Quanto mais indignação ao anunciar alguma medida ou decisão, mais a chance de fazer o contrário do que anunciam. Já sabemos disso, é verdade, mas é sempre pedagógico quando uma nova ocorrência confirma e atualiza o infame padrão de conduta. Contam-se bravatas e mentiras com aquela naturalidade consagrada para sempre.
Depois reclamam porque, na boca do povo, político é tudo igual. Pensei nessa tradição farsesca ao ler sobre a decisão do PL, a facção de Bolsonaro, sobre os vereadores de Maceió que deixaram o partido e se mudaram para o PSDB. Como os envolvidos saíram da legenda fora da janela partidária, corriam o risco de perder os mandatos.
É o que diz a lei, aprovada obviamente no Legislativo, após debates entre todos os partidos, suas lideranças e comandados. Vamos botar um ponto final na farra do troca-troca partidário, diziam os senhores da política. A nova lei dará mais seriedade e robustez ao trabalho sobretudo no parlamento, acrescentavam os brincalhões.
Muito bem. Voltemos ao caso concreto. Durante as maquinações para arranjos eleitorais, o então prefeito João Henrique Caldas se acertou com o que restou dos tucanos, e voou para o PSDB. Ao deixar o PL, arrastou não sei quantos vereadores com ele. Aí o PL foi à Justiça para tomar o mandato de ao menos três dos “traidores”. Negócio sério.
O caso está para ser julgado. Mas, agora há pouco, o PL anunciou que desistiu da ação, desistiu de seguir a lei, desistiu de sua indignação com aqueles que driblaram a regra do jogo. O que explica a reviravolta moral? É que o PL do deputado Alfredo Gaspar quer se amasiar com o PSDB de JHC na eleição alagoana. Fidelidade política? É para os fracos.
Não há escândalo nenhum nesse enredo. Não sejamos ingênuos. Como disse, está tudo de acordo com os padrões da velha política – ainda que praticada pelos cidadãos de bem da “nova política”. Os três vereadores que, segundo o PL, fraudaram a lei ao trocar de partido sem justificativa, estão perdoados. São exemplos de homens públicos.
Pelo que entendi, JHC, Gaspar e os vereadores envolvidos estão de boa. A defesa da aplicação rigorosa da lei vai até a página dois, quando começa o parágrafo sobre os ganhos da barganha eleitoreira. Se está bom para todos, fica bom pra todo mundo.
Insisto: depois querem reclamar quando o povaréu bota tudo no mesmo balaio. E o melhor (digo, o pior) – insisto nisso também – são os patrocinadores do arranjo: jovens de um lado e, do outro, inimigos da “velha política”. Parece piada? E é mesmo.
