Se confirmada a candidatura de Marina Candia (renomeada Marina JHC) a deputada federal, poderemos ter mais um ineditismo nas eleições de 2026. Inédita não é a candidatura, porque, em 1994, a ex-primeira-dama do estado Denilma Bulhões também disputou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Ela não se elegeu. Marina, todos sabem, é a companheira do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o tiktoker JHC. O fato inédito mesmo seria, portanto, a vitória da aspirante ao cargo. As urnas decidem.

Há, de todo modo, essa diferença de esfera administrativa, digamos assim – uma dama estadual e outra municipal. Dois anos depois de derrotada na eleição ao parlamento, Denilma encarou a disputa pela prefeitura de Maceió. E olhe que a eleição de 1996 contava com as candidatas Heloisa Helena e Kátia Born, que acabou vitoriosa.

Há uma diferença mais forte entre as duas situações. Denilma se aventurou nas disputas eleitorais após romper com o marido, o então governador Geraldo Bulhões. É o exato oposto do que ocorre com Marina, que chega à arena eleitoral com o selo do maridão – daí o sobrenome fantasia “JHC”, uma espécie de identitarismo doméstico.

Outro precedente envolvendo primeiras-damas e eleições é o de Rosane Collor, hoje apenas Rosane Malta. Separada do ex-presidente Collor desde 2005, ela tentou um mandato de deputada estadual em 2018, mas também não conseguiu. Após o fracasso, garantiu que seguia na política e voltaria a concorrer ao voto popular. Não aconteceu.

Neste ano, Brasil afora, há ex-primeiras-damas candidatas como nunca houve na história deste país. Bom que a mulherada ocupe o espaço público infestado por dementes da macharada. Em alguns casos, elas ainda associam seus projetos ao legado do “pai de família” e “marido exemplar”. O caso Marina se aproxima perigosamente desse modelo.

Nessa toada, causa incômodo que a decisão sobre a vida de uma mulher esteja atrelada às prioridades do sujeito a seu lado. O tempo todo, a virtual candidatura de Marina está em debate, na sombra da dúvida – e não por suas escolhas, mas a reboque do que é melhor para os planos do marido. Fica a suspeita de que falta independência. 

Além disso, a jovem alternativa de renovação está encaixotada na velha tradição do familismo. De “novidade” mesmo, o desembaraço e a simpatia sintetizadas na linguagem das redes sociais. Denilma Bulhões, naquele mundo remoto, talvez tenha sido mais rebelde do que as novinhas de hoje. Falava por si, sem esperar o aval do macho.