A fé não acaba nunca, sustentam os seguidores fiéis de Jair Bolsonaro. Mas vamos ao contexto. O presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, é especialista em produzir agitação política quando menos se espera. Curioso é como ele faz isso – com declarações que misturam aparente convicção e pitadas de comédia. Foi assim nesta quarta 8 de julho, ao falar com jornalistas após almoço com políticos em Brasília.
Do nada, Valdemar começou a especular sobre o estado de saúde do ex-presidente, preso em regime domiciliar, condenado a 27 anos de cadeia por golpe de Estado. “Ele está com a saúde complicada por causa da situação que enfrenta”. Uma repórter então pergunta se o ex-presidente “melhora” se ganhar a liberdade. Valdemar sem rodeios:
“Ele? Sai de lá pulando de alegria. Sara na hora”. Dá para notar a surpresa dos jornalistas diante das palavras que desmentem a versão da defesa e da família sobre a “fragilidade” do preso. Afinal, ele está em domiciliar justamente pelos inúmeros problemas atestados pelos médicos. Como alguém debilitado pode “sair pulando” amanhã?
A fala de Valdemar irritou aliados e o núcleo duro do bolsonarismo. Eles temem que a “sinceridade” do chefe do PL possa levar o ministro Alexandre de Moraes a mudar de ideia, decidindo pela volta do ex-presidente ao regime fechado. Não é o que vem se desenhando, mesmo com o ruído decorrente do caso com a arma apreendida.
Comecei falando sobre a fé dos bolsonaristas mais fanáticos. Eles ganharam um reforço nessa esperança também com as palavras de Valdemar. Na mesma entrevista, ele insinua que pode estar a caminho uma “reviravolta jurídica” com a sentença de Jair. Para sustentar sua tese, requenta a comparação com o caso do presidente Lula. De novo.
Fala, Valdemar: “Quando o Lula estava preso 580 dias, você imaginava que ele fosse ser candidato à Presidência da República? Tudo pode acontecer. E quem deu esse direito para o Lula? O ministro Fachin, que é um homem de bem, um homem de respeito.” Por essa via, o atual presidente do STF teria o poder de ressuscitar Bolsonaro.
Além de ganhar a liberdade, o líder da direita, dos cidadãos de bem e da tradicional família poderia disputar a eleição. Sim, sua condição de inelegível também seria anulada. Assim o homem voltaria nos braços do povo para se vingar de Lula nas urnas.
É verdade: ninguém esperava que Lula deixasse a prisão como deixou, voltasse à urna e reassumisse o cargo de presidente. Bolsonaro repetirá a saga? Claro que não. É uma fantasia coletiva. Valdemar reacendeu essa faísca delirante numa parte do Brasil.
