A direita brasileira se confunde com o bolsonarismo. Na concepção de Eduardo Bolsonaro, aliás, não existe direita sem que o sobrenome de sua família esteja no topo, no comando das ações. Os seguidores devem obediência – cega, rastejante, incondicional – haja o que houver. O ex-deputado, cassado e foragido nos Estados Unidos, já expôs essa ideia várias vezes. Quem sair da linha, é pau no lombo.
Basta ver o tratamento dispensado aos que se apresentam como aliados do Jair, mas agem, na prática, de modo diferente uns dos outros. O deputado Nikolas Ferreira vive declarando amor eterno ao ex-presidente. Mas vive apanhando de Eduardo e seu capangas. Porque o rapaz ousa divergir de eventuais posições de algum filhote do “mito”.
Tratamento oposto recebem aqueles que decidiram por uma devoção plena, mesmo diante de qualquer evidência de erro de seus comandantes. É o caso, entre muitos, do deputado federal Alfredo Gaspar. A submissão constrangedora é a regra na relação entre o alagoano e seus novos chefes na política. Periga pagar um preço alto.
Nesse panorama, não há como falar em direita civilizada ou termos variantes. Quem domina a área é a tropa com ligações temerárias com o universo miliciano. A Polícia Federal acaba de chegar a mais um aliado dos Bolsonaro cuja trajetória é exatamente por aí. Antes, Rodrigo Bacelar, outro miliciano preso no Rio, era parça de Flávio e Cia.
De volta ao estrito campo da política – deixemos as milícias com os seus –, é um drama a situação de gente como Ronaldo Caiado. Como pré-candidato a presidente, o veterano na vida pública precisa contemplar o eleitorado “conservador”, mas não pode melindrar Flávio, seu rival na disputa. É um negócio insano, a clássica sinuca de bico.
É o mesmo caso de Romeu Zema, o desqualificado ex-governador de Minas Gerais. Assim como o goiano, defende que “basta de polarização”. Mas somente têm autonomia para atacar um dos polos – o presidente Lula. Ocorre que, para convencer a direita, os dois precisam tirar os votos de Flávio. Resultado: não passam de 3% nas pesquisas.
É o que dá quando não se tem a espinha ereta – e o sujeito recorre a acrobacias retóricas para fingir que isso não é aquilo, e vice-versa. Num dia, está no cordão azul. No outro, roda a saia no cordão encarnado. Reza a lenda que, na política, tudo pode e tudo é possível. Mais ou menos. Ambiguidade, por exemplo, é postura mortal.
Caiado e Zema são adversários de Flávio, mas não podem bater nesse adversário. Aí complica. Como explicar essa marmota ao eleitor? Enfim, esse é apenas um dos sinais mais eloquentes de como os brutos sequestraram o que se pretende um legítimo pensamento conservador. O bolsonarismo meteu o cabresto na direita.
