O processo político como um todo e uma disputa eleitoral em particular vinculados a laços de família. Nunca houve nada semelhante na vida pública brasileira. É mais um ineditismo produzido pela ascensão da direita no país. É material farto sendo gestado para estudos sociológicos. Vamos lembrar que durante seu mandato, Jair Bolsonaro defendeu o “filé mignon” para seus filhos. Não era episódio isolado, como se vê agora.
Outro momento de ilustração dessa guinada de paradigma, digamos assim, está naquela gravação na qual Bolsonaro avisa o seguinte: “Não vou esperar que venham foder com a minha família”. De novo, uma manifestação sem precedentes nas disputas políticas na história do Brasil. A Presidência da República a serviço do interesse particular.
A dinâmica entre público e privado é foco antigo e permanente entre pensadores, dentro e fora da academia. De Gilberto Freyre a Roberto DaMatta, de Sergio Buarque a Eduardo Giannetti, o fator parentesco atravessa os estudos sobre a “identidade nacional”. Tenho a impressão de que uma nova etapa está sendo forjada no instante agora.
Essas digressões superficiais decorrem naturalmente da agitação política – alguns chamam de terremoto – provocada por Michelle Bolsonaro. De repente, ou nem tão de repente assim, um bloco ideológico se move a partir das disputas no coração de uma família. Nada menos que uma eleição presidencial afetada pelas demandas de um clã.
Em texto anterior sobre as primeiras-damas, lembrei de Fernando Collor e sua então companheira Rosane. Uma crise no casamento do presidente ganhou as manchetes. Mas era algo estritamente particular. A suposta briga na família nada tinha a ver com fatores políticos. Agora, não. A turbulência com Michelle mostra uma questão familiar no epicentro da guerra pelo poder. É uma novidade que a direita emergente dá ao país.
Pelo que veio à tona em uma semana, estamos longe de um desfecho para o caso. Aliás, mesmo quando isso estiver superado – o que terá de ocorrer –, o fenômeno permanecerá firme. Ou seja, a traficância público-privado tende a perdurar, com desdobramentos já previstos para as eleições de 2030 – como escrevem analistas pela imprensa.
O que temos, portanto, não é algo circunstancial. O bolsonarismo seguirá como uma força no jogo político, incluindo inevitavelmente o tiroteio interno entre pai, filhos, madrasta, agregados e aliados. Já estamos vendo isso em tintas berrantes. A expectativa é para os próximos lances da brigalhada entre familiares. Muito mais vem por aí.
A disputa pelo comando do país, portanto, será afetada para além, ou aquém, das esferas partidárias. O que deveria ficar restrito às dimensões do lar determina rumos no espaço público. Futricas e delinquências caseiras influenciam decisivamente a vida de todos. É um dos legados principais do bolsonarismo, base da nossa direita – a “civilizada” e a extremista, esta que predomina entre nós. Novos tempos no velho Brasil.
