“Ninguém larga a mão de ninguém”. O slogan sempre foi associado mais ao chamado campo progressista. A frase significa demonstração de solidariedade, de apoio incondicional a alguém que, eventualmente, é alvo de ofensas, de acusações falsas ou até de agressão física. O pessoal à direita, em suas variadas gradações, “ressignificou” a expressão, tratando as vítimas com ironia e desprezo. Assim agia o bolsonarismo.
Mas até a Terra plana se move com as estações e suas tempestades. Desde que Flávio Bolsonaro foi flagrado rastejando por uns trocados do banqueiro bandido Daniel Vorcaro, os conservadores cidadãos de bem adotaram o “conceito esquerdista”. Frente ao indefensável, a reação mais vista entre os aliados é esta: “não tem nada de ilegal”.
A singeleza da argumentação segue também o caminho do ataque. O bolsonarismo quer acreditar que, “partindo pra cima” de Lula e do governo, a coisa se resolve. É uma crença semelhante à religiosidade que prega orações para pneus. Essa exótica linha de defesa une os pobres coitados seduzidos pela seita e os marginais que entendem do riscado.
Há os que acreditam mesmo que Jair Bolsonaro é um enviado de Deus. Aliás, é nessa fantasia teocrática, digamos assim, que aposta o filme Dark Horse, a obra-prima do cinema sobre a trajetória do Jair. E há os que sabem que tudo isso se trata de jogada política, que fazem e dizem precisamente aquilo que os crentes querem ver e ouvir.
“Somos todos Flávio Bolsonaro”. Eis uma variação daquele slogan original sobre ser solidário. Não adianta o que tenha acontecido, o que esteja na dimensão da vida real. Não! Como dizem os Bolsonaro, as acusações contra o ainda pré-candidato a presidente não passam de “narrativas”. Outra palavrinha mágica a serviço dos farsantes.
Os que sabem o que houve, mas fingem acreditar na fábula de Flávio, tentam o equilíbrio impossível entre o concreto e a miragem. É o caso de Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas. Neste sábado, o governador de São Paulo inventou uma gripe repentina para fugir de um evento de campanha do Zero Um. Hipocrisia e cinismo combinados.
Outra definição para os parceiros que fantasiam um Flávio cidadão de bem é “oportunismo político”. Podem ser chamados ainda de falsos moralistas, fiscais da moral alheia e “passadores de pano” para os de sua turma. E finalmente a expressão-síntese forjada na própria direita: Flávio Bolsonaro é o típico bandido de estimação.
Na foto acima, o deputado Alfredo Gaspar e o senador Flávio Bolsonaro.
