Dia 9 de abril de 2026. Reportagem do Estadão: Master pagou R$ 27 milhões ao Metrópoles, que fez ‘débito imediato’ a empresas da família de Luiz Estevão. Foi a primeira vez que um veículo da chamada grande imprensa apareceu enrolado no escândalo que levou à cadeia o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A notícia causou rebuliço – ainda mais porque o dono do portal é um ex-senador que já foi preso por corrupção.

Dia 17 de abril de 2026. Reportagem do Metrópoles: Estadão capta R$ 142 milhões e usa gestora implicada no caso Master para administrar debêntures. Uma semana separa a publicação do jornal sediado em São Paulo da reação do portal de Brasília. Estevão foi rápido no gatilho e partiu para a vingança contra o concorrente.

O Estadão tem um século e meio de existência. É um clássico em termos de empresa jornalística familiar, comandado pelo sobrenome Mesquita no decorrer de sua longa história. Nasceu em outro mundo e testemunhou as mudanças que moldaram o planeta que temos aí. Com um rombo financeiro, a fase atual não é das melhores no jornalão.

O Metrópoles tem 15 anos de vida e é, digamos assim, a cara do novo jornalismo – forjado na era digital e das redes sociais. Entre um veículo e outro, há muito mais que um século e décadas de diferença. Com o triunfo da imprensa online, as duas marcas disputam uma nova audiência, assim como os demais títulos no metaverso.

A reportagem do Estadão sobre o repasse do Master ao Metrópoles foi reproduzida pelos demais meios de comunicação. Folha, O Globo, Veja e CNN, entre outros, publicaram as informações reveladas pelo jornal paulista. O mesmo não ocorre agora com a matéria do portal brasiliense sobre O Estado, replicada apenas em veículos “alternativos”.   

A briga dos dois veículos quebra um acordo não escrito entre as grandes empresas de jornalismo do país. O que se tem em regra é uma blindagem recíproca. Por isso é tão raro que tenhamos detalhes da gestão desses meios de informação. Um protege o outro e vice-versa. A ver se a tacada do Metrópoles terá maiores consequências.

Se há alguma jogada ilegal no financiamento do Estadão, não se pode afirmar com todas as letras. Mas uma coisa os dados do Metrópoles revelam de modo muito claro: ao que parece, o jornal da família Mesquita quebrou. E por que ainda resiste? Porque recebeu aportes milionários de ricaços e grandes empresas, sobretudo bancos.

A turma da tradicional casta paulistana – reverente aos valores do velho Estadão – deve ter ficado estarrecida com a “ousadia” do Metrópoles. Seria bom se mais reportagens sobre meandros e engrenagens da imprensa viessem a público com mais frequência. Afinal, os editoriais vivem a cobrar transparência total na República.