O brasileiro está cansado dessa polarização entre esquerda e direita, entre o bolsonarismo e o petismo, entre Lula e Bolsonaro. Passou da hora de pacificar o Brasil. Esse é o pensamento de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. É também o que pensa Ronaldo Caiado (foto), ex-governador de Goiás. Aldo Rebelo é outro decidido a guerrear pela união das famílias hoje divididas. Michel Temer está na mesma onda.
A lista seria interminável. Nunca houve tantas lideranças políticas engajadas na causa do pacifismo. Aqui, temos uma armadilha sobre a qual já escrevi mais de uma vez neste blog. A reprodução em série de um ponto de vista não dá relevância a uma tolice. Ninguém reclamava de polarização naquele país polarizado entre petistas e tucanos.
Foram seis eleições em vinte anos de disputas “polarizadas” entre PT e PSDB. De 1994 a 2014, os petistas Lula e Dilma enfrentaram os tucanos Fernando Henrique, José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves. Quem mais se aproximou de quebrar esse domínio foi Marina Silva. Ciro Gomes também tentou, mas nunca conseguiu decolar.
Lançada nesta segunda-feira 30 de março, a pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado agora é oficial. Em entrevista coletiva, o aspirante ao Planalto falou de seus planos para o país. Mas ele se demorou mesmo na exaltação de suas qualidades para nos salvar desse modo de ser polarizante. Jogou até indiretas à sua própria turma.
Exótica é a fórmula de Caiado para alcançar essa utopia da pacificação. “Fórmula” é modo de dizer, porque tudo se resume a um único ato: anistiar todos os condenados pelo crime de golpe de Estado, a começar pelo chefe da bandalheira, o falso mito Jair Messias. Aí complica. Trata-se apenas de aceno ao eleitorado bolsonarista.
Em palestra nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro requenta a delinquência sobre fraude na eleição brasileira. Sérgio Moro, em evento de filiação ao PL, afirmou que Lula foi eleito “entre aspas”. Moro também prega a paz e condena o “radicalismo”. Não há como levar a sério esses e outros cidadãos de bem com a mesma cantilena.
Enquanto isso, o mundo lá fora convive há séculos com a polarização americana entre democratas e republicanos. Algo semelhante ocorre há milênios na polarizada Inglaterra, onde conservadores e trabalhistas não se bicam. Mais? Portugal, França, Chile, Argentina... E vai por aí. Nos quatro cantos do planeta, pense na brigalhada.
A “pacificação brasileira” – ideia que é de todos e, portanto, de ninguém – serve para panfletos. Na ficção da política é assim. No mundo real, a vida segue indiferente a isso tudo. Sim, é urgente o aprimoramento das democracias. Mas este é outro debate.
