O deputado federal Alfredo Gaspar de Mendonça não pode ser vítima de pré-julgamento. Acusado por dois parlamentares pelo crime de estupro, ele não merece um linchamento virtual no Tribunal da Internet. Isso não é certo e nem civilizado. Condenar alguém por antecipação é o triunfo da barbárie. Na democracia, qualquer acusado tem o direito ao devido processo legal. Presunção de inocência é algo sagrado. Vale para todos.

É o que prevê nossa Constituição. Por isso, em defesa dos princípios da dignidade das pessoas, Alfredo Gaspar não pode ser tratado como Alfredo Gaspar trata seus alvos de investigação. Para comprovar isso basta uma olhada nos muitos depoimentos da finada CPI do INSS. Como relator da Comissão, ele tratou como culpados depoentes que sequer são investigados no âmbito policial. Foi um espetáculo vexatório e até criminoso. 

Quando o depoente era identificado como simpatizante do atual governo, Gaspar se comportava de modo implacável. O tratamento era de “ladrão” para baixo. Se o interrogado era do campo bolsonarista, o tom era outro, ameno, até com salamaleques. No caso do depoimento de mulheres, aí o negócio descia alguns degraus rumo à baixaria. Piadas, trocadilhos infames, gestual histriônico – e a condenação sumária. 

O perfil autoritário do deputado vem desde os tempos do Ministério Público de Alagoas. Como secretário de Segurança, o estilo foi “aperfeiçoado” e se fez notar sobretudo nas quebradas mais pobres, nas vielas, nas grotas, nas bibocas de Maceió.

No fim de semana, ao desembarcar no aeroporto Zumbi dos Palmares, Gaspar foi recebido por uma claque formada por parentes e amigos. Sorrisos, beijinho em crianças e pose com a bandeira do Brasil resumem a armação. Nessas ocasiões confortáveis, sai a boçalidade e entra o jeitão de pai de família, de patriota, quase um cara bonachão.

A denúncia de estupro, feita pelo deputado Lindbergh Farias e pela senadora Soraya Thronicke, está com a Polícia Federal. Nesta segunda-feira o caso completa apenas três dias. (Este é meu terceiro texto sobre o assunto). Gaspar anunciou que vai à Justiça e aos Conselhos de Ética do Congresso contra os dois parlamentares.

Numa dessas ironias desconcertantes, o site 082 Notícias lembra que Alfredo Gaspar é autor do projeto de lei que prevê castração química para estupradores. Que tudo seja esclarecido, com o devido processo legal, dentro daqueles marcos civilizatórios que Alfredo Gaspar nega para seus alvos de investigação. Cumpra-se a lei.