O governador Paulo Dantas poderia ter seguido a lição de Itamar Franco, o improvável presidente que assumiu a faixa após a renúncia de Fernando Collor. Foi em 1993, no escândalo dos “anões do orçamento”. O caso parou o país numa sucessão de episódios que expuseram a rapinagem nos cofres da União. No meio da bagaceira, surge uma suspeita sobre o então ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves. Não era um auxiliar qualquer. Era homem de confiança do mineiro Itamar. A crise batia no governo.

A situação deixou Itamar agastado além da conta. Porque os dois eram amigos havia décadas – e Hargreaves sempre esteve por perto, como uma espécie de assessor permanente do antigo parceiro de jornadas. Mas o presidente não vacilou. Disse confiar no amigo, mas teria de afastá-lo em nome da transparência na gestão pública.

As suspeitas sobre o ministro não passavam de boatos, como a investigação iria demonstrar mais adiante. Itamar informou ao país que seu ministro seria afastado para se defender das acusações sem criar constrangimento ao governo. Caso restasse provada sua inocência, ele poderia voltar ao posto. E assim aconteceu.

De tão citado, esse evento já é praticamente um clichê da política brasileira. Mas não perdeu a validade e deveria ser visto como parâmetro para as gerações seguintes. Mais de três décadas depois, não foram poucas as vezes nas quais gestores públicos se viram diante de algo semelhante ao caso Itamar-Hargreaves. Mas a lição ainda é ignorada.

E foi o que fez o governador Paulo Dantas – o inverso da atitude de Itamar Franco. A volta de Gustavo Pontes de Miranda ao cargo de secretário de Estado da Saúde é a decisão administrativa mais bizarra dos últimos tempos em Alagoas. Além de desafiar a lógica elementar, soa como um acinte ao eleitorado. Que diabos está acontecendo, afinal?

O senhor Gustavo Pontes não tem condições morais para exercer o cargo de secretário. É suspeito de comandar um megaesquema de corrupção na pasta. Segundo a Polícia Federal, mais de 100 milhões de reais podem ter sido desviados por uma quadrilha que atua no coração da secretaria. Estamos diante de uma farra criminosa.

Tem a compra de uma pousada por 5,6 milhões de reais. Tem a compra de cobertura e mansão para uma suposta amante do secretário. Tem a apreensão de uma fortuna em dinheiro vivo (reais, euros e dólares). Na operação do ano passado, a PF apreendeu documentos, computadores e joias. A sede da secretaria passou por uma devassa.

Não há explicação que justifique a renomeação do secretário sob suspeita. Imagino como está o clima na secretaria. Quem respeita um chefe com esse currículo nas costas? Mas a pergunta fatal e incontornável é esta: por que este investigado voltou ao posto de mandachuva? Diante do quadro, é legítimo concluir que o governo todo tem o rabo preso.

Se não é isso, o governador ainda pode fazer o certo: livrar-se do homem-bomba.