O Brasil é um país estranho. No feriado mais feriado do mundo, nós criamos um compromisso inadiável, gabaritado até como artigo na Constituição. E assim neste 1º de janeiro temos um evento de dimensões nacionais. Tomam posse do cargo, em todo o país, mais de 5.500 prefeitos eleitos e reeleitos nas urnas de 2024. Como você já ouviu falar, as últimas eleições fortaleceram o pensamento conservador, as vias pela direita.
Mas, antes da ideologia, o calendário. A posse no primeiro dia do ano vale também para governadores e presidente da República. É aí, na transição presidencial, que o Brasil estranho dá um susto no mundo, com um convite oficial para um ritual em homenagem à burocracia. O noticiário sempre lembra a dificuldade de chefes de estado comparecerem nessas ocasiões. Pegar um avião no clima da virada, cruzar mares e continentes? Posse?
A posse de prefeitos não produz esse ruído internacional. Mas é igualmente um exagero além da cota de tolerância ao exotismo institucionalizado. Agora mesmo, ao longo do dia, milhares de pessoas, muitas de ressaca, sofrem numa cerimônia que poderia ocorrer no dia dois, cinco ou 15 de janeiro. Não faz diferença. Por que isso ainda está aí?
Todo mundo defende a mudança. Não pesquisei agora, mas até um dia desses tramitavam no Congresso não sei quantos projetos para alterar a data. É uma janela para um pouco de lógica em nosso ordenamento jurídico e eleitoral. Fala-se em mexer no calendário desde que isso começou a vigorar, salvo engano, há mais de 30 anos.
Não é fácil porque é cláusula pétrea na Constituição. É o voto livre sob uma blindagem capaz de barrar aventuras autoritárias. A estabilidade das regras, nesse caso, é uma das garantias do jogo limpo. Para tumultuar o debate, o tema também foi arrastado para a “guerra cultural” entre esquerda e direita. Aí, por essa doideira, não tem solução.
Entre os que tomam posse hoje, alguns têm aspirações em comum. Eduardo Paes (Rio de Janeiro), João Campos (Recife) e João Henrique Caldas (Maceió) são virtuais candidatos a governador em 2026. Os três não têm veto ou barreira a essa candidatura “natural”. Não é o caso de Ricardo Nunes, de São Paulo, que fica no mandato até o fim.
Em Maceió, o prefeito selou o destino numa aliança com o senador Rodrigo Cunha. Pelo que acertaram, JHC não tem a alternativa de continuar no cargo a partir do começo de 2026. Tem de sair para disputar o governo ou o Senado. Cunha, o vice, assume como prefeito e disputa a reeleição em 2028. JHC também negocia adesão ao governo Lula.
Essas e outras jogadas, naturais na vida partidária, não sofrerão nenhum abalo com a mudança de data para empossar os gestores municipais, estaduais e federais. Enquanto não houver esse ajuste, a ressaca vai predominar, entre o disfarce e o vexame. Os eleitos mais baladeiros assumem o cargo logo à meia-noite da virada – e embalam na gandaia.
